Banco de personagens: A garota da bolsa cor-de-rosa

Andava sempre apressada pela praça em direção ao ponto de ônibus e invariavelmente chegava atrasada. Ninguém sabia o motivo de tanta correria se nunca dava tempo de pegar o coletivo. Talvez fosse o peso da bolsa, cor-de-rosa gritante, que não a permitisse ser ligeira. Terminava no ponto, bufando com o relógio, como se fosse culpa dele o tempo passar.

Danielle A. Giannini

Banco de personagens: A defesa de Josué

Eu, Josué, desconheço o ofício do autor, mas digo que quem narra uma história nunca o faz com propriedade, creio eu, pelo menos no meu caso. Veja quanta injustiça. Demiti-me do emprego por recomendação médica, problema na coluna, nada resolve, nem unguentos milagrosos. Tenho amigos, sim, e visitam-me com frequência, ainda no mês passado Dona Carlinda bateu à porta com um prato de bolinhos de chuva, estavam deliciosos. Na praça eu realmente estive, fiquei lá durante o tempo suficiente para observar um senhor que jogava migalhas aos pombos; não gosto de pombos, são sujos. Gostaria que parassem de bisbilhotar a minha vida e falar mal de mim.

Danielle A. Giannini

Banco de personagens: Josué e as palavras

Josué era um homem decidido e turrão. Pensou que pudesse dominar o mundo aos gritos, e de fato dominou muitas pessoas assim. Josué não conhecia o poder das palavras e gastou centenas de milhares de vocábulos criticando e reclamando, era assim que se sentia superior. Viu tanto defeito nas coisas da vida, que decidiu que era um injustiçado, e virou a mesa. Demitiu-se do emprego de anos, onde era suportado com paciência por todos, apesar do ríspido Josué nunca ter uma só palavra simpática para dizer-lhes. Os colegas desejaram boa sorte, uns com sinceridade mesmo, ao Josué, que viu paródia naquilo. Chegou em casa e não teve o que fazer. Os dias foram embora, um seguido do outro, e nada de alguém visitar ou telefonar, Josué não fez um amigo sequer ao longo da vida. Estava ocupado com suas palavras rancorosas. Hoje ele foi visto na praça, sorrindo para um senhor, tentava puxar papo. Queria fazer um amigo, mas teria que ter muitas paciência, principalmente com o manejo das palavras.

Danielle A. Giannini