Entre o fazer e o não fazer

Se você está em dúvida entre escrever e não escrever, escreva. Entre pintar e não pintar? Pinte. Entre compor e não compor? Componha. Entre criar e não criar? Crie. Mas escreva, pinte, componha, crie somente se todas as células do seu corpo estiverem envolvidas, com o desejo incontido de fazer algo novo surgir; apele para a mente e para a alma, consulte suas memórias passada, presente e futura, despreze os preconceitos e veja se ainda assim restou a vontade de criar. Então escreva, pinte, componha, crie, mas faça isso se puder suscitar um bom sentimento. Se for para destruir, desiludir, desencorajar, desmoralizar, deixe a criação pra lá; sente-se, respire fundo, coma um chocolate. Aos poucos as células vão serenar, a vontade vai passar e a vida vai seguir. Pense nisso!

Danielle A. Giannini

Liquidação de livros

Oba, livros mais baratos! Que tentação! Tem muita gente que adora; larga tudo, sai correndo e compra um monte dele. Não sei se dá tempo de ler tudo, enfim, está garantido o título na estante de casa. Outras pessoas nem se abalam, afinal é fim de estação e tem roupas em promoção em todas as lojas. O que vale supor é que se há livros mais baratos e leitores comprando, maiores são as chances de serem lidos, folheados, manuseados. Quem quiser aproveitar a liquidação, pode assuntar no blog da Cia das Letras, lá tem uma lista do que está mais em conta. Tomara que dê tempo de ler!

 

Banco de personagens: a moça de cabelos pretos estava com frio

A moça de cabelos pretos chegou vestida de frio e um casaco de couro preto. O pensamento dela estava gelado, o dia estava gelado, o que tinha para fazer era gelado. Continuava procurando palavras, mas o que encontrou naquela manhã foi um momento desnecessário na sua vida, inevitável. Pegou suas incumbências como quem carrega um fardo, saiu apressada dali e não reparou nos Ipês floridos no caminho de casa.  Ainda bem que ela tinha um dia inteiro para se aquecer.

Danielle A. Giannini

Banco de personagens: Ana Josefa e o nojo de comida

Ih, a coisa ficou esquisita para o lado de Ana Josefa. Admitiu em público ter nojo de comida. Foi ontem  ao entrar no restaurante e deparar-se com um prato elaboradíssimo à base de peixe e ervas sendo colocado na primeira mesa, bonito mesmo, e exalando um aroma delicioso. A moça torceu o nariz e não se conteve diante da cena. Se ela tivesse permanecido calada, não seria tão ruim, mas para seu azar, todos os que estavam por perto escutaram. Olharam feio para a moça, mediram Ana Josefá da cabeça aos pés. O garçom que presenciou tudo dirigiu-se a ela e perguntou o que desejava. Ela respondeu que não sabia, não sabia ainda o que estava procurando. Olhou aquele prato mais uma vez, abaixou a cabeça e saiu do restaurante. Tinha nojo de comida.

Danielle A. Giannini

‘Receitinha’ do dia

Pegue meia dúzia de palavras, coloque-as uma ao lado da outra. Tenha o cuidado de ordená-las de forma que uma combine com a outra, para a receita não desandar. Una-as com alguns poucos conectivos, e assegure-se de que estão bem firmes. Depois é só acrescentar um ponto final. Está pronto seu texto. Rapidinho.

Danielle A. Giannini

Banco de personagens: Livia e seu pacote

O pacote era leve, leve e importante. Livia carregava aquilo como se fosse a única coisa que interessasse na vida. E era. O que mais podia valer tanto? Era seu regozijo. Chegando em casa, aparentemente sem pressa, mas desejosa de abrir o saquinho de papelão, pendurou a bolsa na cadeira da sala, tirou os sapatos, calçou uma sapatilha confortável, lavou as mãos, puxou a cadeira da cozinha e respirou fundo, olhos fechados, sentiu o aroma. Tirou do pacote uma caixinha branca com lacinho de cetim dourado, desamarrou a fita e apreciou demoradamente os macarrons coloridos. Eram quatro. Comeu todos eles, um a um, e foi se deitar. Dormiu bem naquela noite.

Danielle A. Giannini