Um cheiro adocicado

 Um cheiro que me persegue, um aroma, doce intenso, talvez perfume, talvez não. Percebo por onde ando, dentro da casa fechada, este mesmo cheiro. Pensei que fosse o cheiro da inspiração, da criação possivelmente. Cheiro que não tem nome, apenas cheiro. Intrigante, além de cheiro. Fui sentindo com o sentido apurado de um olfato sem certeza. Não saberia reconhecer o tal perfume, tampouco cogitar sua origem, porém estava ali, em volta de mim, o cheiro. Pus me a verificar na memória olfativa que outro cheiro se assemelhava àquele, sem sucesso, posto que o tal cheiro preencheu minhas lembranças todas. Nem tinha uma cara, um jeito de andar, uma consistência, era cheiro e pronto, bastava. Bastava-se. Um cheiro entrou na minha casa, instalou0se na minha vida por questão de minutos, minutos longos, e partiu sem que eu me apercebesse. Quando nos acostumamos com um cheiro, ele fica invisível. Quisera fosse um anjo o portador de aroma tão delicioso, um desses anjos que passam para nos visitar sem deixar rastros … será que deixam cheiros? Agora na casa só restou o cheiro da casa, aquele que só se sente depois de longo tempo fora, ao abrir a porta, e mais nada.

Danielle Arantes Giannini