O vendedor de leques *

*Título original de autoria do meu amigo virtual Flávio Assub.

Estavam lá os leques coloridos, estampa fina, todos minuciosamente dispostos sobre o chão rude da rua suja e pisada. Eram leques lindos, confeccionados no papel arroz, feitos a mão, mão que o tempo não perverteu ao desuso, mão hábil. Chamavam a atenção pelas cores vivas, assim gratuitas, na calçada do viaduto movimentado. Olhares recebiam aos montes, entretanto ninguém parava, nem um único transeunte estava disposto a sacrificar um segundo do seu tempo esgotado para apreciar tamanha riqueza. Não eram os únicos leques no viaduto; havia outro rapaz mais a frente, com um pano estendido no chão lotado de um amontoado de guarda-chuvas, baterias para celulares, massageadores portáteis e leques. Eram leques todos iguais, coloridos também, de uma estampa chamativa impressa no plástico; não tinha nem como o produto atrair alguém, misturado que estava aos demais artigos, feio e sem graça. Eram leques e nada mais. Leques sem história. Leques que saíram da máquina direto para a embalagem. Leques que estavam identificados pelo papel escrito em letras medonhas: “Abano em promoção – 3 por 10”. Por isso, e só por isso, um tanto considerável de gente, mulheres na maioria, parou o comprou. Estava calor e precisavam se abanar. Não durou muito o estoque do rapaz; fez um dinheiro bom naquela tarde. Vendeu leques como quem traz a salvação. Depois disso ninguém mais parou ali, ninguém se interessou pelos leques mais a frente, na mesma calçada, encantadores. Não que tivesse acabado o calor, não, estava abafado. O vendedor de leques coloridos, findo o dia, recolheu quase que com carinho sua mercadoria, nenhuma venda. Resignou-se, apenas lamentou não serem leques dignos de cumprirem sua tarefa. Homem de idade avançada, não velho, mas manso no pensar, o vendedor de leques recolheu-se ele também ao casarão antigo onde vivia desde a mocidade com seus pais, que lhe ensinaram a tirar o sustento das próprias mãos. Entrou pelo corredor estreito sem perceber o leque branco que caiu na soleira da porta. Nem o vento quis levar o leque em respeito a tanta beleza. Foi uma mulher que passou, viu o desenho de linhas finas e parou. Pegou o leque nas mãos. Quem teria perdido aquela joia?  Ninguém por perto. Sem resistir, seguiu com o leque em punhos. Agora era dela, e o exibia orgulhosa, para atrair mesmo a inveja dos outros; sabia o quanto era valioso o seu achado. Por pouco não sentiu o cheiro das mãos do vendedor de leques, por bem pouco. Sim, o cheiro dele estava lá, quase apagado; a delicadeza dele estava lá, quase ignorada; o pensamento dele estava lá, quase inaudível; a história daquele homem estava em cada grão de papel daquele leque, para sempre. A mulher quase se deu conta de que estava ali em suas mãos toda a razão de viver de um homem, sua alma completa e despreparada.

 

Danielle Arantes Giannini

 

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