Croniquinhas: 8…no cárcere

Sentindo-se à vontade para sair às ruas celebrar a chegada de uma nova estação do ano, vestiu-se despojadamente do seu estado de felicidade obrigatória e foi. Voltou muito tempo depois, exausto, aflito, pensativo, arrependido. Levaram-lhe os pertences. Eram poucos, mas eram seus. Não tinha nenhum consolo para enfrentar a semana que estava por começar em poucas horas.

Danielle A. Giannini

Grades da criação
Grades da criação

Escrever é tarefa complexa, exige que o sujeito esteja com seus sentidos acionados, apurados; requer paciência e raciocínio minimamente elaborado ( mesmo que seja para lidar com o caos). Escrever não é uma ação involuntária, nem mesmo nos seres mais altamente dotados desse dom. Escrever é uma ação, e como tal, pressupõe uma atitude, a atitude de colocar palavras para fora da mente do ser escrevente, tenham elas sentido ou não para o leitor. Colocar palavras para fora é praticamente impossível quando a mente está encolhida e a inspiração está atrás das grades da apatia. O motivo dessa apatia pode ser muitos: uma preocupação do sujeito que escreve com causas que lhe fogem ao controle e que precisam ser resolvidas; uma enfermidade; um sentimento a ser sentido e não expresso; uma euforia enquietante; falta de silêncio ou excesso do mesmo; cobranças do mundo externo e tantas outras. Vem a apatia que amortece a mente do indivíduo e lá se vai aquientando a inspiração, submissa à falta de desejo, entregue à incapacidade de reação. Tal situação pode durar minutos, horas, dias ou muito mais. Quanto maior sua duração, tanto mais graves as consequências: ideias retidas se perdem, se confundem, se mesclam, se apagam, se apertam, se comprimem, se ocultam … é custoso depois dar ordem às palavras. Porém o sujeito que escreve está à mercê dessa situação e não tem como se prevenir dela diante dos imperativos da vida. Nesse período ele não escreve, quase não lê, nem pensa com lucidez, nada, é tão somente um sujeito sem ação à esperada de dias melhores.

Danielle A. Giannini