croniquinhas… a colheita

 Como se fosse o primeiro dia de sua vida, instalou-se discretamente no aconchego das horas que custavam a passar. Ficou ali não se sabe quanto tempo, até a poeira sacudir sua presença para fora. Achou ruim, ficou bravo mesmo, tal era seu desejo de permanecer inerte no mundo. Mas não teve outra saída senão pegar uma enxada e tratar de não morrer. Não tinha o direito de morrer sem conhecer as pessoas, não tinha o direito de recusar a entrada do oxigênio por suas narinas teimosas, por onde penetrava o cheiro da humanidade toda. Era o seu cheiro. O cheiro de tudo quanto há no mundo, da poeira que decanta e da refeição quente. Nunca mais pôde retirar-se ao desassossego dos devaneios de jovem. Já era maduro o fruto, era inconsistente, porém maduro quase além da conta. Lá se viu ele às voltas com a colheita, nem fartura, nem privações, apenas grãos. Nem grandes, nem pequenos. Apenas grãos. Recolheu os grãos, as horas, o frio, o medo, a felicidade e quis caminhar a passos largos. Era tarde demais. E como fosse o último dia de sua vida, lamentou.

Danielle A. Giannini

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s