O ano que não queria terminar

Não é o que se espera de um ano, especialmente no seu suspiro final. Mas é o que aconteceu com aquele ano quase findo, que teimava em assombrar a vida das pessoas ansiosas. Sim, pois todo ansioso quer que o ano termine antes de completar seus obrigatórios 365 dias, afinal por que tantos dias em um só ano? Fato é que nenhum dia fica de fora e o ansioso por natureza deseja tudo, menos viver esses dias. Por conta disso, aquele ano resolveu atormentar a vida de um bocado de gente que não o desejava mais. O ano não queria terminar. Cada dia enorme, imenso, lento, demorado, de calor paralisante no hemisfério Sul, de frio maltratante no hemisfério Norte. Ar sem oxigênio para ventilar o cérebro dos seres pensantes. O ano estava decidido a não terminar, e isso gerou terror e espanto em quem estava apaixonado, em quem tinha montantes a receber, em quem estava com hora marcada para uma comemoração importante. Tudo isso teria que esperar. Enquanto o teimoso ano não acabasse, nada de definições. E também não adiantava fazer suposições, pois o ano que estava na fila para chegar não podia antecipar seus feitos. O jeito que as pessoas encontraram foi respirar fundo cada segundo daquele ano desgostoso, e como isso passou lento. Teve gente que sucumbiu, teve quem precisou tomar calmantes, teve até quem optou por trancar-se em casa à espera do fim daquele ano que não queria terminar. Mas nenhum ano é para sempre. Pensar nisso salvou todas as vidas que não aguentavam mais a demora do novo ano, que vinha com mais de 300 oportunidades de recomeço, realizações, resoluções, superações, enfim, todos conseguiram chegar no ano seguinte. Foi por pouco!

Danielle A. Giannini

Texto originalmente publicado em https://medium.com/@dagdani

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Banco de personagens: Dinorá esqueceu a data

Todo ano era a mesma coisa. Chegava aquela data e Dinorá se apressava em comprar lembrancinhas. Para um, para outro, para quem nem sabia o nome, lembrava-se de todos, exceto dela mesma. Passada a festividade, a mulher de mais de meia idade, sempre exausta dos seus afazeres, deixava-se cair na poltrona puída por obra do gato siamês. Permanecia ali um dia inteiro, sem forças para subir as escadas, tamanho era o peso do ano todo nas suas costas. Neste ano Dinorá esqueceu a data. Esteve absorta demais cuidando de si, que não teve tempo de ir às compras. Desculpou-se com um, com outro, sentiu um lampejo de vergonha por tamanha gafe, mas só um breve lampejo mesmo, e ficou satisfeita com sua aparência no espelho. Viu o rosto corado, sobrancelhas delineadas, marcas amenizadas na testa; estava bem disposta por resultado da dieta e das aulas de ioga. Como não tinha com o que presentear os conhecidos e desconhecidos, foi para a festividade assim sem culpa. Não preparou o pernil habitual com que ofertava a dona da casa que a convidava anualmente; preferiu passar na doceria para comprar algo que agradasse ao paladar da maioria. Comeu, bebeu, falou alto, riu, desejou Feliz Natal e foi-se embora. Dormiu sono profundo, na poltrona da sala mesmo. No dia seguinte subiria as escadas … leve que só!

Danielle A.Giannini

 

Poeminhas para aliviar a tensão: árvores

árvores

arvore_imagem

As árvores, imponentes
Crescem o quanto querem
E nos miram do alto

As árvores impõem sua presença
Dura
Movem-se ao vendo
E, no entanto, quedam-se sob o céu

Só o céu é mais alto que as árvores.

Danielle A. Giannini