Banco de personagens: Dinorá esqueceu a data

Todo ano era a mesma coisa. Chegava aquela data e Dinorá se apressava em comprar lembrancinhas. Para um, para outro, para quem nem sabia o nome, lembrava-se de todos, exceto dela mesma. Passada a festividade, a mulher de mais de meia idade, sempre exausta dos seus afazeres, deixava-se cair na poltrona puída por obra do gato siamês. Permanecia ali um dia inteiro, sem forças para subir as escadas, tamanho era o peso do ano todo nas suas costas. Neste ano Dinorá esqueceu a data. Esteve absorta demais cuidando de si, que não teve tempo de ir às compras. Desculpou-se com um, com outro, sentiu um lampejo de vergonha por tamanha gafe, mas só um breve lampejo mesmo, e ficou satisfeita com sua aparência no espelho. Viu o rosto corado, sobrancelhas delineadas, marcas amenizadas na testa; estava bem disposta por resultado da dieta e das aulas de ioga. Como não tinha com o que presentear os conhecidos e desconhecidos, foi para a festividade assim sem culpa. Não preparou o pernil habitual com que ofertava a dona da casa que a convidava anualmente; preferiu passar na doceria para comprar algo que agradasse ao paladar da maioria. Comeu, bebeu, falou alto, riu, desejou Feliz Natal e foi-se embora. Dormiu sono profundo, na poltrona da sala mesmo. No dia seguinte subiria as escadas … leve que só!

Danielle A.Giannini

 

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