planeta distante

MERCÚRIO

Aquela luz no céu preto, o que era? Encafifou quem costuma olhar para o alto. Brilhava grande e amarelo, de uma intensidade tão forte, que as estrelas ao derredor resignaram-se quase apagadas, e tinha muita estrela na noite de ontem. Mas aquele brilho era diferente, magnetizava o olhar, atiçava a curiosidade. De onde viria tanta luz? Astrônomos garantiram que era Mercúrio, explicaram com palavras bonitas a aparição do planeta que estaria na sua máxima elongação leste, seja o que for isso. Nas almas sonhadoras, provocou inspiração; nas vacilantes, fez tremer de assombro; nas impuras, nada causou porque essas não erguem os olhos ao céu. Almas ansiosas criaram hipóteses patéticas e se corroeram com elas; as cartesianas buscaram explicações para alimentar as almas observadoras que se dispuseram a registrar o evento em imagens e palavras, a grande e brilhante exibição de Mercúrio. Só para nos lembrar que nenhuma dessas almas ocupa o centro do universo.

Danielle Arantes G.

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A razão

“É verdade que, enquanto apenas considerava os costumes dos outros homens, eu pouco encontrava com que me assegurar, observando entre eles quase tanta diversidade quanto havia notado antes entre as opiniões dos filósofos. De modo que o maior proveito que eu retirava era aprender, vendo várias coisas que, embora nos pareçam extravagantes e ridículas, não deixam de ser comumente aceitas e aprovadas por outros grandes povos, a não crer muito firmemente naquilo que me fora persuadido apenas pelo exemplo e o costume, e assim a livrar-me aos poucos de muitos erros que podem ofuscar nossa luz natural e nos tornar menos capazes de ouvir a razão. Mas, depois de dedicar alguns anos a estudar desse modo no livro do mundo e a procurar adquirir alguma experiência, tomei um dia a resolução de estudar também em mim mesmo, e de empregar todas as forças do meu espírito em escolher os caminhos que devia seguir.”

R. Descartes, Discurso do Método, 1637

Banco de personagens: Daniela magrela

Daniela magrela queria compor versos. Não sabia catar palavras, mas acreditava que tinha uma sina carregada no seu nome. Daniela pensava que ela era a própria rima, pois por ser magra de verdade, todos a chamavam Daniela magrela. Tanta magreza não lhe rendeu o dom de rimar, talvez por ser pobre mesmo a rima de seu nome e de sua alma. Não sentia com emoção, sequer tinha fome.

Danielle Arantes G.