Homem de sorte?

Ser de sorte

sortudo

sorte

Mas aquele é um sortudo mesmo. Olha só a mulher que ele arranjou? Como pode? Nem bonito ele é. Deu foi sorte de ter emprego bom. Sabia que, quando dá cinco da tarde, o sortudo vai embora? Isso mesmo, Judity, cinco da tarde. Eu na maior labuta até oito da noite, e ainda chego em casa e encontro tudo de pernas pro ar. O sortudo aí tem empregada. Deu sorte até no cachorro. Não late. Vá lá em casa pra você ver o que é cachorro, uma latição que chega a ter vez de dar vontade de arramar a boca do Tobias, cachorro que só sabe comer e latir. Olha, Judity, olha o que estou te dizendo, aquele Pascoal nasceu virado pra lua, e sem calças, que é pra aumentar a sorte. Olha, Judity, mês passado ele viajou, parece que foi pra algum país aí, nem sei porque ele não posta nada na internet; isso dá uma raiva. Sujeito estranho. Deve ser por isso que tem tanta sorte.
Jussara, deixe de bestagem; do jeito que você fala, parece que tem inveja. Pascoal comeu muita poeira pra chegar onde chegou. Conheço ele faz tempo. Não foi pouco o que sofreu. E você só olha o que ele conquistou, sua despeitada, devia ter vergonha. Sorte não cai na cabeça de ninguém, não, Jussara, o que tem é o osso pra roer, mas isso você não vê.
Não adiantou Jussara falar tudo aquilo do sortudo Pascoal. Judity o tinha por conta de sortudo e ponto final. Saíram andando assim que Pascoal passou acenando para as duas, simpático e educado. Elas foram embora, para sorte do homem.

Danielle Arantes Giannini

Leia mais sobre a sorte em https://vivenciaseganhos.wordpress.com/2019/07/08/questao-de-sorte/

 

 

 

Como eu não vi?

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Passou por mim e nem vi
não sei se era vulto de gente
ou de morto
se bem que todo morto é gente
e muita gente é morta
não morta de corpo gelado
morta de inapetência de vida
Passou um tanto veloz
só vi o vulto
vulto apressado
O que buscava o vulto?
Para onde corria?
Ei, espere
o que é tão de urgência?
Vá com mais calma
com mais alma
com alguma alma
Por que vai só?
Vulto apressado
não sei se é homem ou mulher
vulto alto, escuro e desforme
passou e deixou aquele sopro de vento
sopro que enrijece a espinha
dá um solavanco na tranquilidade
e traz a cisma
pior fosse promover o cisma
pois que por muito
já anda desajustada nossa gente
Não vi quem passou
para onde ia
por que ia
Como acontece com tantas pessoas
vultos passam por elas
vultos diários
na rua
na condução
no comércio
na empresa
Que mundo cheio de vultos
Passam por nós amiúde
e não sabemos quem são
para onde vão
por que vão.
Nada confortável é saber que somos
nós próprios vultos que olhos alheios captam
mas não registram
Passamos e vamos
feito vulto apressado
às vezes vivo
às vezes morto.

Danielle Arantes Giannini