Como eu não vi?

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Passou por mim e nem vi
não sei se era vulto de gente
ou de morto
se bem que todo morto é gente
e muita gente é morta
não morta de corpo gelado
morta de inapetência de vida
Passou um tanto veloz
só vi o vulto
vulto apressado
O que buscava o vulto?
Para onde corria?
Ei, espere
o que é tão de urgência?
Vá com mais calma
com mais alma
com alguma alma
Por que vai só?
Vulto apressado
não sei se é homem ou mulher
vulto alto, escuro e desforme
passou e deixou aquele sopro de vento
sopro que enrijece a espinha
dá um solavanco na tranquilidade
e traz a cisma
pior fosse promover o cisma
pois que por muito
já anda desajustada nossa gente
Não vi quem passou
para onde ia
por que ia
Como acontece com tantas pessoas
vultos passam por elas
vultos diários
na rua
na condução
no comércio
na empresa
Que mundo cheio de vultos
Passam por nós amiúde
e não sabemos quem são
para onde vão
por que vão.
Nada confortável é saber que somos
nós próprios vultos que olhos alheios captam
mas não registram
Passamos e vamos
feito vulto apressado
às vezes vivo
às vezes morto.

Danielle Arantes Giannini

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