Olhar que é arma

Foi caminhar sem rumo porque precisa espairecer. Era sempre a mesma coisa quando se afligia além da conta. E ela invariavelmente ficava tomada pela raiva quando alguém fazia bobagens no trabalho e colocava a culpa na chuva, no vento, nas nuvens no céu. Quando mais jovem, não aprendeu a aceitar cada um como cada um é, e agora essa falta de aprendizado pesava-lhe no ânimo. A bem da verdade, minava seu ânimo. A solução era sair para andarilhar sem ir a lugar algum porque não queria ter a obrigação de um destino certo; precisava do tempo que fosse, para organizar duas ou três ideias até a aflição passar. Só depois de andar muito até as panturrilhas reclamarem, é que voltava para o escritório, olhava um por um, tomava um café sem açúcar e recomeçava de onde tinha parado. Todos já conheciam essa rotina e nem se aproximavam, porque ninguém era louco de fazer isso. Não que fosse acontecer algo; na verdade, ela é que evitava os colegas, para não fuzilar um por um. Com isso era cuidadosa, não olhava nos olhos de alguém se estivesse desgostosa, sabia que o olhar podia ser uma arma perigosa. Por isso preferia andar, até gastar toda a raiva e poder olhar quem quer que fosse novamente. No outro dia era igual, depois igual, sempre igual. Como ninguém mudava nunca, previsíveis, resolveu comprar um par de tênis.

Danielle Arantes Giannini 

Banco de personagens: Dona Soraya e o cadeado

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Ah, Soraya medrosa…que ventos lhe trazem aqui? Foi a pergunta que tomou Nestor de assalto quando viu a quase moça se aproximar do balcão. Quase moça porque ela não se sentia mais exatamente uma moça, achava que estava passada da mocidade, pelo menos era o que o espelho contava para ela. Mas Soraya tinha medo de se demorar até na frente do espelho, vai que dava de encontrar mais idade escondida em algum canto do rosto! Nestor não sabia desse desconforto de Soraya com a coisa do tempo que passa para todos, mas conhecia o lado medroso da sua freguesa de tantas primaveras. Fazia um tanto de tempo que ela não aparecia para comprar nada, estava se precavendo com o ganho mensal pouco vultoso que recebia da firma em que trabalhava, tinha medo de não dar para o fim do mês, tinha medo de não ter o suficiente para comprar os remédios do futuro, tinha medo de gastar sem necessidade. Ninguém sabe onde pegou esse medo, que no começo parecia ser um bom hábito de gente precavida. Como vai a vida, Dona Soraya? Está difícil, Seu Nestor, está difícil. Quem podia imaginar qual era a dificuldade dela? Talvez a parentela soubesse, talvez. O que deseja, Dona Soraya? A loja de Nestor era de ferragens, onde ela desde sempre comprava arame e alicates para fazer uns trabalhos manuais que vendia para as amigas; chegou a presentear Nestor em um Natal, era um objeto que parecia uma fruteira, mas poderia ser um porta qualquer coisa também. Vai levar arame? Não, ela queria cadeados. Pediu mais de dezena deles. Pediu do mais em conta. De certo, algum artesanato novo. Fez a compra e se foi. Nestor não sabia que os cadeados eram para as portas e janelas da casa de Soraya, que de véspera havia sonhado um estranho sonho em que todas as portas e janelas da casa abriam-se quando ela as fechava, rebeldes, interminavelmente. Alguma coisa em Soraya queria se libertar, mas ela temia saber. Pesadelo terrível, melhor prevenir!

Texto: Danielle Arantes Giannini

 

Banco de personagens: O Inspetor do Museu

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Conheci um senhor na cadeira de espera dos Correios, muito conversador, simpático, aparentando nenhuma idade específica; parecia um rosto conservado. Estava demorando para chamarem a senha dele, e a minha também, por isso o homem pôs-se a falar comigo sem enfado ou embaraço. Não perguntou da meteorologia, como é de praxe entre desconhecidos que desejam matar o tempo ou preencher um vazio constrangedor. Ele foi logo perguntando se eu conhecia o “museu sei lá das quantas”. Não guardei o nome do museu mais por um lapso auditivo do que por desinteresse. Respondi que não. O meu novo amigo de espera não se conteve. Apresentou-se como Inspetor do Museu! Fiquei pensativo na hora, não sabia bem se havia inspetores em museus, porém não ousei fazer questionamentos porque um inspetor devia ser uma figura de respeito. Creio que se intitulava assim porque a palavra carregava algo de importância. E era, conforme ele próprio me contou. Das tantas a tantas horas da noite, era ele quem vigiava centenas e centenas de obras de sabe-se lá que valor que residiam ali no salão do acervo, todas obras valiosas, segundo o Inspetor, esperando a vez de serem escolhidas por algum curador para estrelarem uma exposição. Provavelmente era o segurança, pensei eu, mas não estava disposto a insistir nos esclarecimentos porque o homem se bastava de tanto orgulho de seu trabalho. Talvez fosse uma atividade carregada de tédio e dores nas pernas, só que o “inspetor” via uma relevância tão contagiante naquele afazer diário, que eu também fui contagiado pela aura imponente da criatura sentada ali no banco de espera da agência. Saí de lá, quase hora depois, de coluna ereta, cabeça erguida, certo de que ganhara meu dia, conversando com uma criatura de tamanha importância.

Danielle Arantes G.

Banco de personagens: Deolinda, Deolinda

Viram quem saiu toda prosa de casa hoje cedo? Foi a mulher mais bela do bairro. Não que Deolinda fosse bonita para os padrões da estética atual, mas era tomada de uma autoestima tão grande, que não tinha como não atrair olhares por onde passava. Não pintava o cabelo, usava-os em abundância ao sabor do vento; raramente colocava cor nas unhas e não via necessidade alguma em acertar a posição dos dentes. A ela bastava esbanjar seu sorriso quando julgava oportuno e despejar com desmesura suas opiniões sobre qualquer temática, ainda que não necessariamente lhe tivessem interpelado a respeito do que quer que fosse. Deolinda era afeita às lutas, mulher de fibra mesmo, no entanto chorava demais, enchia baldes quando se via na urgência de consolar um sofredor, pois sofria junto; ela acreditava que seria mais útil demonstrando sua piedade do que tomando uma atitude prática que pudesse tirar a outra criatura do seu tormento, assim todos veriam como era solidária e  boa;por isso era popular e todos a queriam por conta de amigos. Numa dessas, Deolinda deu de cara com um garoto de pouca idade ainda, por volta da adolescência, que lhe desferiu um olhar de tão acintoso desprezo mediante o discurso vazio da mulher, que aquela alma acostumada com as adulações típicas da conveniência social estremeceu de raiva. Longe de admitir que não podia ser unanimidade, Deolinda o blasfemou porque ela era linda, boa e justa demais para suportar o atrevimento de um pirralho mau.

Banco de personagens: Daniela magrela

Daniela magrela queria compor versos. Não sabia catar palavras, mas acreditava que tinha uma sina carregada no seu nome. Daniela pensava que ela era a própria rima, pois por ser magra de verdade, todos a chamavam Daniela magrela. Tanta magreza não lhe rendeu o dom de rimar, talvez por ser pobre mesmo a rima de seu nome e de sua alma. Não sentia com emoção, sequer tinha fome.

Danielle Arantes G.

Banco de personagens: Diana não era invisível

Diana tinha certeza de que não era querida. Olhavam-na torto, sem sorrisos. Passava o dia com a cabeça pregada no computador, para não ser hostilizada. Pensava que o problema eram as roupas que vestia, um tanto antiquadas, talvez estivesse no próprio corpo um tanto magricela. Diana nunca atentou para os colegas. Dia a dia, chegava de olhar baixo, evitando a desaprovação de todos. Não sabia que na salinha do café, que sempre fica no final do corredor, funcionários do andar comentavam a beleza tristonha de Diana. Um deles ameaçou dizer que era soberba a moça; outro a defendeu, alegando timidez; o chefe informou que era competente e por isso não a dispensava. A mulher da limpeza, que ouvia a tudo, saiu bufando que a Dona Diana era de um azedume que fazia até indigestão. Gilberto lembrou-se do dia em que tentou uma conversa com a moça porque a achava bem interessante, sem êxito. No fundo, ninguém conhecia Diana. Diana vivia com a cabeça enterrada no computador.

Danielle Arantes Giannini

 

Banco de personagens: A moça do cabelo branco

A moça não queria ser nada além de um amontoado de lembranças sem cor, só para poder viver sem doer, com a alma pura e calma. Mas aconteceu de ser ela um depósito empoeirado de memórias ainda cheirando a decepção. Por isso perambulava em lentidão pelo corredor do apartamento em desordem. Onde arrumar empenho para organizar cabides, caixas e gavetas? Tudo era peso e vagar na existência da moça. Precisava pintar os cabelos que já lhe caíam brancos pelo canto do olho.

 

Danielle Arantes Giannini

Banco de personagens: A mulher da casa ao lado

 

Não cansava daquela mania de lastimar-se. A mulher da casa ao lado praguejava contra o passado, contra o presente, contra o que nem tinha acontecido ainda. A pobre coitada tinha por certo o que ia acontecer, parecia que consultava um oráculo. Sempre eram maus presságios. E a mulher resmungando em voz alta, que eu ouvia do outro lado da parede. Era isso dia após dia, cansava-me os ouvidos. Ela não percebia que temos conosco a vida que procuramos, a mulher da porta ao lado.

Danielle Arantes Giannini

18/01/17

Banco de personagens: Julieta não comeu morangos

2011-07-20_1311174130Depois da espera de quase um ano, Julieta desistiu. Não compraria morangos nesta estação. Os danados chegaram caros demais, Julieta tinha outras prioridades. Não que fossem exorbitantemente dispendiosos, não que faltasse vontade a ela, era mesmo por acreditar que seu desejo não valia aquilo que estavam cobrando. Poderia juntar o dinheiro de todas as caixas de morangos vermelhos e suculentos que certamente compraria durante o inverno. Preferiu deixar para o ano seguinte, quem sabe a fruta estaria mais em conta. Entrou no estúdio de tatuagens e saiu com um belo morango no antebraço. Finalmente um morango para apreciar em todas as estações do ano.

Danielle A. Giannini

21/07/16