Galinhas invisíveis, por Meire de Bartolo

galinha_meireband

Não quero criar suspense, mas não foi logo de cara que a vi. Estava lá no alto da prateleira, acho que sentada. Só consegui ver uma de suas asas e me pergunto se tinha outra. Seu olhar era de uma languidez que nunca pensei que uma galinha pudesse ter. E o bico? Bem, não tinha bico. No seu lugar, um sorriso desdenhoso que parecia denunciar que ela tudo via e não era vista. Mas eu a vi!

   A galinha era feita de uma chita espalhafatosa multicolorida e estava enfeitando uma loja de produtos naturais. Enquanto eu pagava a conta dos vários pacotinhos de guloseimas inocentes que escolhi, olhei para cima e lá estava ela. Ri, espontaneamente, talvez por achar um despropósito encarar uma galinha daquele tipo olhando bem para mim. O vendedor incluiu-se na cena e me disse:

– Engraçado, são as crianças que veem a galinha. Os adultos nunca reparam nela.

“Engraçado”! Fiquei feliz com o comentário dele. Criança, estou longe de ser, mas não pude deixar de me lembrar do que aconteceu comigo no dia anterior.

Estive na casa dos meus pais e, por acaso, encontrei uma gaveta cheia de fotos de tempos diversos. Uma delas era da minha primeira comunhão. Lembrava desse dia, mas tinha me esquecido da foto. Lá estava eu com um casaquinho branco com um distintivo da playboy (não imagino o sentido disso!) e uma vela acesa nas mãos. Cabelos naturalmente ondulados que não existem mais, nem os “ondulados”, nem o “naturalmente”, e um olhar de quem acreditava estar no lugar certo, fazendo a coisa certa. Lembro-me de que dificilmente eu gostava de ver uma foto minha, fosse de criança, adolescente ou adulta. Sempre achava defeitos. Meus olhos eram pequenos, minha boa era inexpressiva. O nariz era ok, mas sem personalidade. Rosto redondo, meio bolachudo e o cabelo…ah o cabelo! Quando não existiam shampoos queratinizados, escovas progressivas, botox…ele era…Bem, era o que era!

Desta vez foi diferente. Olhei para a foto e, sem hesitar, resolvi cuidar daquela menina. Gostei de olhar a imagem de sua sinceridade e pureza. A garotinha pouco sabia da vida e, por isso, era tão ela mesma. Não senti pena, senti amor. Resolvi adotá-la, e para tentar protegê-la, tratei de guardá-la rapidinho dentro de minha pequena bolsa. Ainda bem que ninguém viu porque eu não saberia explicar por que queria levá-la embora.

Na noite do domingo, já em casa, tirei-a do abrigo da bolsa e a levei para a cama comigo. Nossos olhares se cruzaram e revelaram se amar mutuamente.

Fizemos um pacto de cuidarmos uma da outra por amor e admiração recíproca e prometemos nunca mais nos separarmos. Fomos dormir assim, lado a lado, serenas e realizadas como nunca.

Curiosamente, na manhã seguinte, eu vi aquela galinha, ou melhor, a menina que sou a viu. Não é mais ela ou eu. Somos uma só agora.

Acredito que as galinhas não me serão mais invisíveis daqui para frente.

Texto gentilmente cedido por Meire de Bartolo

 

Anúncios

Banco de personagens: A moça do cabelo branco

A moça não queria ser nada além de um amontoado de lembranças sem cor, só para poder viver sem doer, com a alma pura e calma. Mas aconteceu de ser ela um depósito empoeirado de memórias ainda cheirando a decepção. Por isso perambulava em lentidão pelo corredor do apartamento em desordem. Onde arrumar empenho para organizar cabides, caixas e gavetas? Tudo era peso e vagar na existência da moça. Precisava pintar os cabelos que já lhe caíam brancos pelo canto do olho.

 

Danielle Arantes Giannini

Ideias fermentadas

riscosQuando a mente borbulha, perece que cresce, se expande. São as ideias fermentando. Digo-lhes que não podem eclodir todas ao mesmo tempo, devem respeitar uma ordem. Não sei qual sequência, mas é urgente uma disciplina mental, organizacional. Parece que as ideias não deram muita bola para meu discurso controlador e continuaram agitadas, revolucionando os neurônios, que de tão confusos, não permitiam qualquer ação prática. O resultado é que, até o momento, todos os projetos quedaram-se no papel, apenas palavras.

 

Danielle A. Giannini

O ano que não queria terminar

Não é o que se espera de um ano, especialmente no seu suspiro final. Mas é o que aconteceu com aquele ano quase findo, que teimava em assombrar a vida das pessoas ansiosas. Sim, pois todo ansioso quer que o ano termine antes de completar seus obrigatórios 365 dias, afinal por que tantos dias em um só ano? Fato é que nenhum dia fica de fora e o ansioso por natureza deseja tudo, menos viver esses dias. Por conta disso, aquele ano resolveu atormentar a vida de um bocado de gente que não o desejava mais. O ano não queria terminar. Cada dia enorme, imenso, lento, demorado, de calor paralisante no hemisfério Sul, de frio maltratante no hemisfério Norte. Ar sem oxigênio para ventilar o cérebro dos seres pensantes. O ano estava decidido a não terminar, e isso gerou terror e espanto em quem estava apaixonado, em quem tinha montantes a receber, em quem estava com hora marcada para uma comemoração importante. Tudo isso teria que esperar. Enquanto o teimoso ano não acabasse, nada de definições. E também não adiantava fazer suposições, pois o ano que estava na fila para chegar não podia antecipar seus feitos. O jeito que as pessoas encontraram foi respirar fundo cada segundo daquele ano desgostoso, e como isso passou lento. Teve gente que sucumbiu, teve quem precisou tomar calmantes, teve até quem optou por trancar-se em casa à espera do fim daquele ano que não queria terminar. Mas nenhum ano é para sempre. Pensar nisso salvou todas as vidas que não aguentavam mais a demora do novo ano, que vinha com mais de 300 oportunidades de recomeço, realizações, resoluções, superações, enfim, todos conseguiram chegar no ano seguinte. Foi por pouco!

Danielle A. Giannini

Texto originalmente publicado em https://medium.com/@dagdani