Banco de personagens: A moça do cabelo branco

A moça não queria ser nada além de um amontoado de lembranças sem cor, só para poder viver sem doer, com a alma pura e calma. Mas aconteceu de ser ela um depósito empoeirado de memórias ainda cheirando a decepção. Por isso perambulava em lentidão pelo corredor do apartamento em desordem. Onde arrumar empenho para organizar cabides, caixas e gavetas? Tudo era peso e vagar na existência da moça. Precisava pintar os cabelos que já lhe caíam brancos pelo canto do olho.

 

Danielle Arantes Giannini

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Ideias fermentadas

riscosQuando a mente borbulha, perece que cresce, se expande. São as ideias fermentando. Digo-lhes que não podem eclodir todas ao mesmo tempo, devem respeitar uma ordem. Não sei qual sequência, mas é urgente uma disciplina mental, organizacional. Parece que as ideias não deram muita bola para meu discurso controlador e continuaram agitadas, revolucionando os neurônios, que de tão confusos, não permitiam qualquer ação prática. O resultado é que, até o momento, todos os projetos quedaram-se no papel, apenas palavras.

 

Danielle A. Giannini

O ano que não queria terminar

Não é o que se espera de um ano, especialmente no seu suspiro final. Mas é o que aconteceu com aquele ano quase findo, que teimava em assombrar a vida das pessoas ansiosas. Sim, pois todo ansioso quer que o ano termine antes de completar seus obrigatórios 365 dias, afinal por que tantos dias em um só ano? Fato é que nenhum dia fica de fora e o ansioso por natureza deseja tudo, menos viver esses dias. Por conta disso, aquele ano resolveu atormentar a vida de um bocado de gente que não o desejava mais. O ano não queria terminar. Cada dia enorme, imenso, lento, demorado, de calor paralisante no hemisfério Sul, de frio maltratante no hemisfério Norte. Ar sem oxigênio para ventilar o cérebro dos seres pensantes. O ano estava decidido a não terminar, e isso gerou terror e espanto em quem estava apaixonado, em quem tinha montantes a receber, em quem estava com hora marcada para uma comemoração importante. Tudo isso teria que esperar. Enquanto o teimoso ano não acabasse, nada de definições. E também não adiantava fazer suposições, pois o ano que estava na fila para chegar não podia antecipar seus feitos. O jeito que as pessoas encontraram foi respirar fundo cada segundo daquele ano desgostoso, e como isso passou lento. Teve gente que sucumbiu, teve quem precisou tomar calmantes, teve até quem optou por trancar-se em casa à espera do fim daquele ano que não queria terminar. Mas nenhum ano é para sempre. Pensar nisso salvou todas as vidas que não aguentavam mais a demora do novo ano, que vinha com mais de 300 oportunidades de recomeço, realizações, resoluções, superações, enfim, todos conseguiram chegar no ano seguinte. Foi por pouco!

Danielle A. Giannini

Texto originalmente publicado em https://medium.com/@dagdani