A desejosa

desejo

Desejou tanto, que sua vida era só desejo, aquele mesmo, único e intransferível, e acrescento, irrealizável, pelo menos para ela. Do que resultou uma vida maldita, com oscilações de esperança e frustrações. Ela não se permitia imaginar que seu desejo era impossível de se concretizar, por isso sofreu na vida. Agarrou-se ano nada. Sonhou durante a vida toda em ser quem jamais seria, ter o que não teria, tudo porque ouviu alguém dizer que é preciso sonhar alto. Assim o fez e não teve tempo de viver.

Danielle Arantes Giannini

Deolinda foi à praia

 

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Esperou muito pelas férias que não chegavam nunca. Arrumou algumas mudas de roupa na mala e desceu feliz da vida para o litoral. Ela e quase todas os seres humanos habitantes do planeta. A moça queria colocar os pés na água, relaxar um pouco da correria atribulada da cidade grande, mas quase não viu o mar, não encontrou areia livre para pisar, sequer escutou o barulho das ondas porque o ar foi tomado por uma música estridente, que ela julgava de mau gosto. Em compensação, o nariz respirou uma disputada maresia. Deolinda colocou as roupas de volta na mala, inclusive o cansaço e a decepção, e subiu a serra. De volta à cidade grande, a coitada decidiu comprar um sorvete, que degustou demoradamente no banco de uma sorveteria. Parecia que estava na praia. Desfez-se do cansaço enfim.

Danielle Arantes Giannini

pica-pau

Tem um casal de pica-pau atrás de mim. 
toc toc toc toc toc toc toc toc 
Estão fazendo o trabalho deles num tronco.
E dizem para mim:
“tente tente sempre tempe sem cansar, que você consegue”.
Enquanto eu escuto, continuam na árvore tentando.

Danielle Arantes Giannini

O céu na minha cidade está negro

ceu negro

 

Olhei para o céu e vi que estava desabando negrume sobre os passantes. Tratei de passar rápido. Tinha afazeres para o dia. Era meu segundo dia de disciplina, não podia falhar. Portanto parar e esperar o futuro do céu não estava nos meus planos. Pensei que minha vida devia continuar, assim como todas as vidas devem continuar mesmo quando o céu está pesado, pesaroso, pois os problemas e as soluções existem apesar do céu.

Então segui adiante.

Danielle A.Giannini

croniquinhas… a colheita

 Como se fosse o primeiro dia de sua vida, instalou-se discretamente no aconchego das horas que custavam a passar. Ficou ali não se sabe quanto tempo, até a poeira sacudir sua presença para fora. Achou ruim, ficou bravo mesmo, tal era seu desejo de permanecer inerte no mundo. Mas não teve outra saída senão pegar uma enxada e tratar de não morrer. Não tinha o direito de morrer sem conhecer as pessoas, não tinha o direito de recusar a entrada do oxigênio por suas narinas teimosas, por onde penetrava o cheiro da humanidade toda. Era o seu cheiro. O cheiro de tudo quanto há no mundo, da poeira que decanta e da refeição quente. Nunca mais pôde retirar-se ao desassossego dos devaneios de jovem. Já era maduro o fruto, era inconsistente, porém maduro quase além da conta. Lá se viu ele às voltas com a colheita, nem fartura, nem privações, apenas grãos. Nem grandes, nem pequenos. Apenas grãos. Recolheu os grãos, as horas, o frio, o medo, a felicidade e quis caminhar a passos largos. Era tarde demais. E como fosse o último dia de sua vida, lamentou.

Danielle A. Giannini

croniquinhas… arqueologia do lixo

Os arqueólogos descobriram um verdadeiro tesouro: o lixo! Enfim teriam pistas dos hábitos alimentares e outros costumes dos antepassados. Menos sorte terão os arqueólogos do futuro quando encontrarem nosso lixo. Lixo atômico cibernético de zinco e lítio com sobras de garrafa pet, celulares e laptops. O legado da nossa civilização.

Danielle Arantes Giannini

Croniquinhas: … avião

Tinha em mãos um bilhete aéreo e uma maleta pequena, carregava pouca bagagem porque sua consciência ultrapassava o limite de peso permitido para se embarcar em aeronaves. Depois de centenas de horas de espera, conseguiu um cartão de embarque, mas o avião não conseguiu levantar vôo. Estava pesado demais. As bagagens estavam cheias de consciência.

Danielle Arantes Giannini, in: Novas Croniquinhas