pica-pau

Tem um casal de pica-pau atrás de mim. 
toc toc toc toc toc toc toc toc 
Estão fazendo o trabalho deles num tronco.
E dizem para mim:
“tente tente sempre tempe sem cansar, que você consegue”.
Enquanto eu escuto, continuam na árvore tentando.

Danielle Arantes Giannini

Um copo de café com leite

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Estava travada na vida e queria ir além.

Como podia? Sem forças, sem máscaras, sem ninguém.

Nem pretexto tinha.

Parou, respirou,

olhou o rapaz que transportava botijões de gás na garupa da moto

pensou que sua vida não era tão arriscada

e decidiu tomar um copo de café com leite.

 

Danielle Arantes Giannini

A quem possa interessar, reflexão breve “Sobre grama, aceitação e clorofila”, no blog Dores & Ganhos.

O céu na minha cidade está negro

ceu negro

 

Olhei para o céu e vi que estava desabando negrume sobre os passantes. Tratei de passar rápido. Tinha afazeres para o dia. Era meu segundo dia de disciplina, não podia falhar. Portanto parar e esperar o futuro do céu não estava nos meus planos. Pensei que minha vida devia continuar, assim como todas as vidas devem continuar mesmo quando o céu está pesado, pesaroso, pois os problemas e as soluções existem apesar do céu.

Então segui adiante.

Danielle A.Giannini

“O vendedor de leques” no blog de Flávio Assub

Surpresa deliciosa hoje logo cedo. Meu amigo de Instagram Flávio Assub publicou no blog dele a crônica que escrevi inspirada na foto que ele postou dias atrás. Adorei!

Confiram no blog “É legal demais”: http://www.elegaldemais.blogspot.com.br/2012/11/o-vendedor-de-leques.html

As gentis palavras de Flávio Assub:

“Publiquei no Instagram uma foto que particulamente achei linda, clicada pelas minhas andanças pela Colômbia. Mas a foto ganhou mais paixões! Ao dar um título a ela, a grande amiga virtual Danielle Giannini se encantou tanto com o clique quanto com o título que dei: “O Vendedor de Leques”. Pura inspiração. Eu também pensara assim, mas foi ela, a Daniele que logo se propôs, muito gentil e delicadamente, como costuma ser, a escrever uma crônica. Eis aqui as emocionantes palavras. No título, o link direto para o blog da Dani.” 

Agora estou esperando a versão dele para “O vendedor de leques”!!!

O vendedor de leques *

*Título original de autoria do meu amigo virtual Flávio Assub.

Estavam lá os leques coloridos, estampa fina, todos minuciosamente dispostos sobre o chão rude da rua suja e pisada. Eram leques lindos, confeccionados no papel arroz, feitos a mão, mão que o tempo não perverteu ao desuso, mão hábil. Chamavam a atenção pelas cores vivas, assim gratuitas, na calçada do viaduto movimentado. Olhares recebiam aos montes, entretanto ninguém parava, nem um único transeunte estava disposto a sacrificar um segundo do seu tempo esgotado para apreciar tamanha riqueza. Não eram os únicos leques no viaduto; havia outro rapaz mais a frente, com um pano estendido no chão lotado de um amontoado de guarda-chuvas, baterias para celulares, massageadores portáteis e leques. Eram leques todos iguais, coloridos também, de uma estampa chamativa impressa no plástico; não tinha nem como o produto atrair alguém, misturado que estava aos demais artigos, feio e sem graça. Eram leques e nada mais. Leques sem história. Leques que saíram da máquina direto para a embalagem. Leques que estavam identificados pelo papel escrito em letras medonhas: “Abano em promoção – 3 por 10”. Por isso, e só por isso, um tanto considerável de gente, mulheres na maioria, parou o comprou. Estava calor e precisavam se abanar. Não durou muito o estoque do rapaz; fez um dinheiro bom naquela tarde. Vendeu leques como quem traz a salvação. Depois disso ninguém mais parou ali, ninguém se interessou pelos leques mais a frente, na mesma calçada, encantadores. Não que tivesse acabado o calor, não, estava abafado. O vendedor de leques coloridos, findo o dia, recolheu quase que com carinho sua mercadoria, nenhuma venda. Resignou-se, apenas lamentou não serem leques dignos de cumprirem sua tarefa. Homem de idade avançada, não velho, mas manso no pensar, o vendedor de leques recolheu-se ele também ao casarão antigo onde vivia desde a mocidade com seus pais, que lhe ensinaram a tirar o sustento das próprias mãos. Entrou pelo corredor estreito sem perceber o leque branco que caiu na soleira da porta. Nem o vento quis levar o leque em respeito a tanta beleza. Foi uma mulher que passou, viu o desenho de linhas finas e parou. Pegou o leque nas mãos. Quem teria perdido aquela joia?  Ninguém por perto. Sem resistir, seguiu com o leque em punhos. Agora era dela, e o exibia orgulhosa, para atrair mesmo a inveja dos outros; sabia o quanto era valioso o seu achado. Por pouco não sentiu o cheiro das mãos do vendedor de leques, por bem pouco. Sim, o cheiro dele estava lá, quase apagado; a delicadeza dele estava lá, quase ignorada; o pensamento dele estava lá, quase inaudível; a história daquele homem estava em cada grão de papel daquele leque, para sempre. A mulher quase se deu conta de que estava ali em suas mãos toda a razão de viver de um homem, sua alma completa e despreparada.

 

Danielle Arantes Giannini

 

Um cheiro adocicado

 Um cheiro que me persegue, um aroma, doce intenso, talvez perfume, talvez não. Percebo por onde ando, dentro da casa fechada, este mesmo cheiro. Pensei que fosse o cheiro da inspiração, da criação possivelmente. Cheiro que não tem nome, apenas cheiro. Intrigante, além de cheiro. Fui sentindo com o sentido apurado de um olfato sem certeza. Não saberia reconhecer o tal perfume, tampouco cogitar sua origem, porém estava ali, em volta de mim, o cheiro. Pus me a verificar na memória olfativa que outro cheiro se assemelhava àquele, sem sucesso, posto que o tal cheiro preencheu minhas lembranças todas. Nem tinha uma cara, um jeito de andar, uma consistência, era cheiro e pronto, bastava. Bastava-se. Um cheiro entrou na minha casa, instalou0se na minha vida por questão de minutos, minutos longos, e partiu sem que eu me apercebesse. Quando nos acostumamos com um cheiro, ele fica invisível. Quisera fosse um anjo o portador de aroma tão delicioso, um desses anjos que passam para nos visitar sem deixar rastros … será que deixam cheiros? Agora na casa só restou o cheiro da casa, aquele que só se sente depois de longo tempo fora, ao abrir a porta, e mais nada.

Danielle Arantes Giannini

Banco de personagem: Dona Odila abordou a moça da bolsa cor-de-rosa

Ah, não teve jeito de segurar a Dona Odila naquele dia. Perto da hora do almoço, ela saía do açougue quando viu a moça afobada, correndo com a bolsa cor-de-rosa pendurada no ombro.  Obviamente não saiu ao encalço da guria, foi mesmo o acaso que deu de arranjar as coisas. A coitada da moça tropeçou num caixote deixado por alguém no meio da calçada e quase caiu. Dona Odila aproveitou que a moça aparentava desconserto e se aproximou perguntando se tinha machucado.
_Não, não machuquei, não, senhora, obrigada. É essa maldita pressa que quase me deixou cair.
_É, eu já vi você correr outras vezes aqui na rua, moça.
_Sempre atrasada, senhora.
A moça estava tentando retomar a corrida quando viu o ônibus dela passar reto pelo ponto. Deu de ombros. O dia estava mesmo perdido. A curiosa da Dona Odila queria saber de onde ela vinha, para onde ia, o que levava numa bolsa tão grande…e rosa. E nada. A mocinha sorriu, agradeceu mais uma vez a atenção da senhora simpática e pôs da andar mais devagar.

Danielle A. Giannini