pica-pau

Tem um casal de pica-pau atrás de mim. 
toc toc toc toc toc toc toc toc 
Estão fazendo o trabalho deles num tronco.
E dizem para mim:
“tente tente sempre tempe sem cansar, que você consegue”.
Enquanto eu escuto, continuam na árvore tentando.

Danielle Arantes Giannini

Anúncios

O céu na minha cidade está negro

ceu negro

 

Olhei para o céu e vi que estava desabando negrume sobre os passantes. Tratei de passar rápido. Tinha afazeres para o dia. Era meu segundo dia de disciplina, não podia falhar. Portanto parar e esperar o futuro do céu não estava nos meus planos. Pensei que minha vida devia continuar, assim como todas as vidas devem continuar mesmo quando o céu está pesado, pesaroso, pois os problemas e as soluções existem apesar do céu.

Então segui adiante.

Danielle A.Giannini

Grito das palavras

Ahhhhhh

Que dor no âmago…

Lancinante

São as palavras

Malditas miseráveis

Não querem se calar

Explodem

Lançam-se ao léu 

Poderia perdê-las todas

Como viver sem elas?

Cada uma delas

Necessito de todas

Mesmo que seja para desprezá-las por impropriedade

Traidoras

Foram-se

Foram cumprir seu destino de palavra

E eu permaneci calada.
Danielle Arantes Giannini 

08/08/2016

Próxima pegada

Texto-presente de André Santana para Palavras sobre Palavras

imagem texto andre santana

Ele estava vindo nesta direção.
Chapéu na mão,
andar lento e sem nenhuma pressa.
Cá entre nós,
a vida é assim.
Constante e sem pressa…
Ao olhar para trás,
ficam somente as pegadas.
Em breve elas sumirão.
Seja na próxima poeira,
próxima chuva,
brisa
ou mesmo próxima pegada.

(André Santana – http://assandre.wix.com/andresantana)

 

 

 

Consolo

Na imensidão do mar encontro consolo, retiro força, adquiro paciência. Longe no mar, onde o horizonte traça uma linha divisória entre o que minha vista alcança e o que não se pode ver, entendo com mais vivacidade e clareza a grandeza das coisas de Deus. As águas em movimento eterno, disciplinadas pelas leis da natureza, me levam para o profundo contato com o que sou mas não percebo no cotidiano. É a sutileza dos mistérios que grita à minha frente querendo despertar. Envolvida por tal contemplação, ponho-me a escutar os mistérios, o insondável, o inaudível, o urgente. A imanente força da vida que não cessa quer se manifestar, porém nem todos estão atentos, entretidos com bebidas, com corpos, com prazeres gastos. É o som da rebentação que me extrai do superficialismo e avisa que o mar tem algo a me dizer.

E escuto, atenta, disponível, abraçada pelo divino, pensamento metafísico. Deixo levar o pensamento pelas idéias que não são minhas, vêm de presente dos seres que habitam o etéreo e conhecem o dstinos dos homens. Eu vislumbro o paraíso sem nem mesmo entender as dimensões da vida e acato ao apelo de servir. Faço um pacto e descubro que é meu compromisso de sempre, percebo também que é um pacto com a humanidade, sério, responsável, fiel. O mar me diz que para conseguir o
que desejo, preciso antes saber desejar. Ciente do que desejo, devo mobilizar forças que façam girar os fluídos de que os sonhos são feitos e depois esperar até que maturem as formas. Como a maré que sobe na hora de subir e desce na hora de descer; como a onda que corre o mar todo até encontrar a areia mole para quebrar; como os moluscos que não ganham a água sem antes abrir as conchas. Por que então me angustiar com a pressa das coisas se não sei quando é devido que elas se tornem fato? É o que o mar me questiona e não sei responder. Desconheço a resposta porque estou tomada por essa pressa inútil que mais serve para enfraquecer a fé. Com a ajuda prestimosa de um livro sobre a heroína da França, diante do mar, entendo o valor da coragem arregimentada pela fé nas coisas de Deus. Nada mais me resta a duvidar, nenhuma escolha a não ser manter-me coerente com a lei divina, nem mais uma sombra de descrença ou descrédito, nada a não ser empunhar a espada da vitória que transcende todas as eras, espada do bem, símbolo da bravura dos puros de coração e instrumento da providência. É esta espada que empunho de agora em diante, em busca do meu gênio céltico, porém mais integrada do que nunca à minha terra presente, ciente de que aqui posso plantar a semente da eternidade da vida, da pluralidade dos mundos e da ascensão pela luta. O mar escuta estes meus pensamentos e consente; sabe que entendi o seu recado e continua sua tarefa de despertar outras pessoas.

Danielle A.Giannini

(20 de julho de 2008, Ubatuba)

Cuidado com as palavras!

 

Slide1
É mais ou menos assim: um diz o que quer, outro ouve o que não quer. Um desentende-se com o outro e outro se recente com um. Aí é tarde demais. As palavras, boas ou más, não são vazias. Elas são carregadas de intenções. A intenção pode ser qualquer uma, por certo irá atingir quem lê ou escuta. Por isso faz-se útil policiar as palavras. Palavras não devem ser insanas se não desejamos ferir. Palavras não podem ser levianas se não intentamos magoar. Palavras não passarão despercebidas. Quem as profere não passa impune. Quem as recebe não fica impassível. É certo que uma palavra, corriqueira que seja, muda um bocadinho de alguém, e isso é uma tremenda responsabilidade de que a profere. Quem ouve ou lê, dependendo da habilidade com as palavras, entende ou concorda ou recusa ou se recente ou esboça outras tantas outras reações, mas nunca será o mesmo de antes. Assim, mudamos todos a cada palavra que enviamos e recebemos. As palavras movimentam o mundo. Isso é assustador!

Danielle A. Giannini

Vontade de dizer algo

 

 

 

 

 

 

Quando dá essa vontade,

que seja bom esse algo.

Que seja proveitoso.

Que seja útil ou bonito.

Não precisa ser majestoso,

nem frívolo, tampouco afetado.

Que seja algo digno de ser dito.

Porque se não for,

nem precisa dizer.

As palavras têm um preço

E o que não deve ser dito

Custa caro.

Melhor dizer o que é fácil pagar.

Danielle A. Giannini