pica-pau

Tem um casal de pica-pau atrás de mim. 
toc toc toc toc toc toc toc toc 
Estão fazendo o trabalho deles num tronco.
E dizem para mim:
“tente tente sempre tempe sem cansar, que você consegue”.
Enquanto eu escuto, continuam na árvore tentando.

Danielle Arantes Giannini

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Consolo

Na imensidão do mar encontro consolo, retiro força, adquiro paciência. Longe no mar, onde o horizonte traça uma linha divisória entre o que minha vista alcança e o que não se pode ver, entendo com mais vivacidade e clareza a grandeza das coisas de Deus. As águas em movimento eterno, disciplinadas pelas leis da natureza, me levam para o profundo contato com o que sou mas não percebo no cotidiano. É a sutileza dos mistérios que grita à minha frente querendo despertar. Envolvida por tal contemplação, ponho-me a escutar os mistérios, o insondável, o inaudível, o urgente. A imanente força da vida que não cessa quer se manifestar, porém nem todos estão atentos, entretidos com bebidas, com corpos, com prazeres gastos. É o som da rebentação que me extrai do superficialismo e avisa que o mar tem algo a me dizer.

E escuto, atenta, disponível, abraçada pelo divino, pensamento metafísico. Deixo levar o pensamento pelas idéias que não são minhas, vêm de presente dos seres que habitam o etéreo e conhecem o dstinos dos homens. Eu vislumbro o paraíso sem nem mesmo entender as dimensões da vida e acato ao apelo de servir. Faço um pacto e descubro que é meu compromisso de sempre, percebo também que é um pacto com a humanidade, sério, responsável, fiel. O mar me diz que para conseguir o
que desejo, preciso antes saber desejar. Ciente do que desejo, devo mobilizar forças que façam girar os fluídos de que os sonhos são feitos e depois esperar até que maturem as formas. Como a maré que sobe na hora de subir e desce na hora de descer; como a onda que corre o mar todo até encontrar a areia mole para quebrar; como os moluscos que não ganham a água sem antes abrir as conchas. Por que então me angustiar com a pressa das coisas se não sei quando é devido que elas se tornem fato? É o que o mar me questiona e não sei responder. Desconheço a resposta porque estou tomada por essa pressa inútil que mais serve para enfraquecer a fé. Com a ajuda prestimosa de um livro sobre a heroína da França, diante do mar, entendo o valor da coragem arregimentada pela fé nas coisas de Deus. Nada mais me resta a duvidar, nenhuma escolha a não ser manter-me coerente com a lei divina, nem mais uma sombra de descrença ou descrédito, nada a não ser empunhar a espada da vitória que transcende todas as eras, espada do bem, símbolo da bravura dos puros de coração e instrumento da providência. É esta espada que empunho de agora em diante, em busca do meu gênio céltico, porém mais integrada do que nunca à minha terra presente, ciente de que aqui posso plantar a semente da eternidade da vida, da pluralidade dos mundos e da ascensão pela luta. O mar escuta estes meus pensamentos e consente; sabe que entendi o seu recado e continua sua tarefa de despertar outras pessoas.

Danielle A.Giannini

(20 de julho de 2008, Ubatuba)

No mundo da gentileza

É onde eu queria viver. Com pessoas dando bom dia, boa tarde, boa noite; dizendo por favor e muito obrigado (as mulheres dizem muito obrigada, no feminino, caso alguém não saiba). É lá que as pessoas são gentis umas com as outras e perdoam as falhas alheiras, ou nem percebem (no caso das realmente gentis). Nesse lugar gentil, ninguém quer ultrapassar ou trapassear, não se ouvem xingamentos nem achincalhes; então deve ser um bom lugar. Ouvi dizer que lugar assim não existe, mas quem sabe podemos construir um , com ruas largas e floridas, com árvores e lagos limpos, com casas honestas e pessoas gentis? Quem se habilita?

Palavra do dia: “CONFIANÇA”, um substantivo difícil

 É fácil, fácil perder a confiança em alguém ou algo. Conquistá-la é tarefa por vezes árdua, trabalhosa, demanda tempo e paciência, além de algumas decepções.  Confiança não é algo que se encontre aos borbotões, é antes uma predisposição para aceitar que o outro não vai lhe causar problemas, danos físicos ou emocionais, prejuízos de qualquer natureza. A melhor imagem que tenho da confiança é o próprio ser humano, quando ainda é bem pequenininho! Os bebês confiam incondicionalmente nas mães porque não saber desconfiar. Acostumam-se desde o período da gestação a confiar na alimentação que recebem, no aconchego e tal. Depois que nascem, deixam-se confiar nos braços das mamães, recebem-lhe o leite materno, roupas, banho, colo, afagos e outros mimos. Crescem e vão aprendendo a andar, falar e desconfiar. Opa, algo corrompe o ser humano durante sua vida e o priva da confiança. Deixa de confiar no amigo, na professora, no brinquedo que quebrou tão rápido … talvez deixe de ter confiança na própria mãe; aprende por meios variados que se tiver confiança nos políticos será enganado; se confiar no colega de trabalho será trapaceado, e por aí vai. Agora pergunto-me se a confiança é uma virtude, algo bom de se ter, do tipo que acalma a agente, ou se é bem ruim e perigoso, o que nos predisporia a esperar um golpe a qualquer momento. Então penso, penso e  concluo  que existe a confiança boa de sentir, como aquela do bebê que se vê seguro no colo da mãe, e a confiança perigosa, que vai acabar mal, como confiar em alguém que lhe dá um papel em branco para assinar. Ou um exemplo atualíssimo, como vou confiar em alguém que pede para eu preencher um cadastro com meu endereço eletrônico, com a garantia de que a informação será para uso próprio, e logo depois quilos de e-mails começam a chegam com spams e mais outras lorotas?! E percebo que a tarefa é mesmo dura. Temos que escolher em quem confiar! Fico torcendo para que os homens, políticos e não-político, se esforcem realmente para conquistarem a boa confiança de nós todos, sem fazerem pouco desse substantivo tão difícil. Danielle A. Giannini

Palavras sobre esse mundão : “RESPEITO”

Não que seja uma palavra praticada, mas ela existe em todos os dicionários. Às vezes é com conferir se o termo não foi surrupiado do “pai dos burros”, sim, pois não tem sido incomum as pessoas se esquecerem de carregá-la no bolso. Respeito parece algo que oscila entre o careta e o nobre; para uns é coisa de gente boba e para outros, graças ao bom Deus, é valor que se usa à mesa! Nem vou perder tempo em traçar considerações sobre o respeito às leis, argh, isso é difícil em um país onde há tantas leis regulando absolutamente tudo na vida dos cidadãos. Quero me ater ao respeito pelo próximo. Também não quero me abalar comentando o respeito que o poder público deveria ter pelos indivíduos; isso é assunto que nos tira do sério. Vou falar somente de pessoas, assim mesmo, pessoas anônimas transitando pelas ruas, umas a pé, outras de carro, de ônibus etc. Com tanta pressa que elas têm, fica até previsível que esqueçam em casa uma carga tão pesada como o respeito, mas a verdade é que não é nada agradável quando alguém não nos dá passagem, não segura a porta do elevador, não pede “por favor”, não diz um mísero “Bom Dia”. Por que não fazem uma campanha: “não esqueça o respeito em casa, você pode precisar dele”? Pior se decidirem criar uma lei exigindo que todos usem do respeito, aí o caldo entorna. Então que cada um pratique o respeito por conta própria, quem sabe assim dá certo?!

Danielle A. Giannini