Um cheiro adocicado

 Um cheiro que me persegue, um aroma, doce intenso, talvez perfume, talvez não. Percebo por onde ando, dentro da casa fechada, este mesmo cheiro. Pensei que fosse o cheiro da inspiração, da criação possivelmente. Cheiro que não tem nome, apenas cheiro. Intrigante, além de cheiro. Fui sentindo com o sentido apurado de um olfato sem certeza. Não saberia reconhecer o tal perfume, tampouco cogitar sua origem, porém estava ali, em volta de mim, o cheiro. Pus me a verificar na memória olfativa que outro cheiro se assemelhava àquele, sem sucesso, posto que o tal cheiro preencheu minhas lembranças todas. Nem tinha uma cara, um jeito de andar, uma consistência, era cheiro e pronto, bastava. Bastava-se. Um cheiro entrou na minha casa, instalou0se na minha vida por questão de minutos, minutos longos, e partiu sem que eu me apercebesse. Quando nos acostumamos com um cheiro, ele fica invisível. Quisera fosse um anjo o portador de aroma tão delicioso, um desses anjos que passam para nos visitar sem deixar rastros … será que deixam cheiros? Agora na casa só restou o cheiro da casa, aquele que só se sente depois de longo tempo fora, ao abrir a porta, e mais nada.

Danielle Arantes Giannini

Banco de personagens: Ana Josefa e o nojo de comida

Ih, a coisa ficou esquisita para o lado de Ana Josefa. Admitiu em público ter nojo de comida. Foi ontem  ao entrar no restaurante e deparar-se com um prato elaboradíssimo à base de peixe e ervas sendo colocado na primeira mesa, bonito mesmo, e exalando um aroma delicioso. A moça torceu o nariz e não se conteve diante da cena. Se ela tivesse permanecido calada, não seria tão ruim, mas para seu azar, todos os que estavam por perto escutaram. Olharam feio para a moça, mediram Ana Josefá da cabeça aos pés. O garçom que presenciou tudo dirigiu-se a ela e perguntou o que desejava. Ela respondeu que não sabia, não sabia ainda o que estava procurando. Olhou aquele prato mais uma vez, abaixou a cabeça e saiu do restaurante. Tinha nojo de comida.

Danielle A. Giannini