A palavra “muito”

Muito, muito mesmo. Muito de tudo. É esta a síntese do meu país… e também da minha cidade. Muito grande, muito barulhento, muito desigual, muito, muito. Já parou para observar como tudo é exagerado por aqui? Tem muita gente, tem muito carro, muita moto. Tem muita loja de tudo, tem muita poluição, muito desmatamento. Uma quantidade muito enorme de celulares, muitas reclamações nos órgãos de defesa dos muitos consumidores. E a lista dos muito não para. Muito meliante, muito político corrupto, muito empresário desonesto, muita gente querendo levar vantagem, muito crime e muita pouca vontade de resolver os muitos problemas na saúde, na segurança pública, na educação, O que muito me admira é que o nosso povo é muito complacente. Tem muita coisa boa também, muitos talentos (embora muitos desperdiçados), muitas belezas naturais (já foi muito mais), muitas frutas saborosas e muito mar. Poderia ficar aqui fazendo uma lista muito grande, mas seria muito cansativo ler. Então paro por aqui com os muitos “muito” desse país superlativo, desejosa de que aqui haja pessoas muito gentis, honestas, alegres, instruídas e justas. Assim fica muito melhor!

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Palavras de um motorista

Estava saindo da garagem do prédio e um guincho tentava passar na rua. Um carro vinha no sentido contrário e, percebendo que não havia espaço para ele o guincho, encostou o veículo um pouco para o canto e parou, dando passagem ao maior. O motorista do guincho tirou a cabeça para fora da janela e desandou a gritar impropérios que não ouso reproduzir, achando que havia pouco espaço para ele. Ainda parada no portão da garagem, esperando aquilo tudo se resolver e sobrar um pouco de rua para mim, fiquei pasma. Depois segui meu caminho pensando o que teria irritado tanto aquele motorista.Alguém lhe deu passagem e ele xingou. Como não tinha razão, usou palavras igualmente sem razão. Palavras dessas são despejadas aqui e acolá todos os dias o tempo todo, quase displicentemente, embora sejam carregadas de intenção. Esse é o perigo das palavras, a intenção que lhes dá corpo. As tais palavras atingiram o outro condutor, gentil, logo nas primeiras horas da manhã e sabe-se lá que efeito tiveram ao longo do dia sobre essa pessoa. Isso me faz pensar que além da higiene bucal, devemos cuidar da higiene das nossas palavras,urgente.