Deolinda foi à praia

 

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Esperou muito pelas férias que não chegavam nunca. Arrumou algumas mudas de roupa na mala e desceu feliz da vida para o litoral. Ela e quase todas os seres humanos habitantes do planeta. A moça queria colocar os pés na água, relaxar um pouco da correria atribulada da cidade grande, mas quase não viu o mar, não encontrou areia livre para pisar, sequer escutou o barulho das ondas porque o ar foi tomado por uma música estridente, que ela julgava de mau gosto. Em compensação, o nariz respirou uma disputada maresia. Deolinda colocou as roupas de volta na mala, inclusive o cansaço e a decepção, e subiu a serra. De volta à cidade grande, a coitada decidiu comprar um sorvete, que degustou demoradamente no banco de uma sorveteria. Parecia que estava na praia. Desfez-se do cansaço enfim.

Danielle Arantes Giannini

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Galinhas invisíveis, por Meire de Bartolo

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Não quero criar suspense, mas não foi logo de cara que a vi. Estava lá no alto da prateleira, acho que sentada. Só consegui ver uma de suas asas e me pergunto se tinha outra. Seu olhar era de uma languidez que nunca pensei que uma galinha pudesse ter. E o bico? Bem, não tinha bico. No seu lugar, um sorriso desdenhoso que parecia denunciar que ela tudo via e não era vista. Mas eu a vi!

   A galinha era feita de uma chita espalhafatosa multicolorida e estava enfeitando uma loja de produtos naturais. Enquanto eu pagava a conta dos vários pacotinhos de guloseimas inocentes que escolhi, olhei para cima e lá estava ela. Ri, espontaneamente, talvez por achar um despropósito encarar uma galinha daquele tipo olhando bem para mim. O vendedor incluiu-se na cena e me disse:

– Engraçado, são as crianças que veem a galinha. Os adultos nunca reparam nela.

“Engraçado”! Fiquei feliz com o comentário dele. Criança, estou longe de ser, mas não pude deixar de me lembrar do que aconteceu comigo no dia anterior.

Estive na casa dos meus pais e, por acaso, encontrei uma gaveta cheia de fotos de tempos diversos. Uma delas era da minha primeira comunhão. Lembrava desse dia, mas tinha me esquecido da foto. Lá estava eu com um casaquinho branco com um distintivo da playboy (não imagino o sentido disso!) e uma vela acesa nas mãos. Cabelos naturalmente ondulados que não existem mais, nem os “ondulados”, nem o “naturalmente”, e um olhar de quem acreditava estar no lugar certo, fazendo a coisa certa. Lembro-me de que dificilmente eu gostava de ver uma foto minha, fosse de criança, adolescente ou adulta. Sempre achava defeitos. Meus olhos eram pequenos, minha boa era inexpressiva. O nariz era ok, mas sem personalidade. Rosto redondo, meio bolachudo e o cabelo…ah o cabelo! Quando não existiam shampoos queratinizados, escovas progressivas, botox…ele era…Bem, era o que era!

Desta vez foi diferente. Olhei para a foto e, sem hesitar, resolvi cuidar daquela menina. Gostei de olhar a imagem de sua sinceridade e pureza. A garotinha pouco sabia da vida e, por isso, era tão ela mesma. Não senti pena, senti amor. Resolvi adotá-la, e para tentar protegê-la, tratei de guardá-la rapidinho dentro de minha pequena bolsa. Ainda bem que ninguém viu porque eu não saberia explicar por que queria levá-la embora.

Na noite do domingo, já em casa, tirei-a do abrigo da bolsa e a levei para a cama comigo. Nossos olhares se cruzaram e revelaram se amar mutuamente.

Fizemos um pacto de cuidarmos uma da outra por amor e admiração recíproca e prometemos nunca mais nos separarmos. Fomos dormir assim, lado a lado, serenas e realizadas como nunca.

Curiosamente, na manhã seguinte, eu vi aquela galinha, ou melhor, a menina que sou a viu. Não é mais ela ou eu. Somos uma só agora.

Acredito que as galinhas não me serão mais invisíveis daqui para frente.

Texto gentilmente cedido por Meire de Bartolo

 

Banco de personagens: A mulher da casa ao lado

 

Não cansava daquela mania de lastimar-se. A mulher da casa ao lado praguejava contra o passado, contra o presente, contra o que nem tinha acontecido ainda. A pobre coitada tinha por certo o que ia acontecer, parecia que consultava um oráculo. Sempre eram maus presságios. E a mulher resmungando em voz alta, que eu ouvia do outro lado da parede. Era isso dia após dia, cansava-me os ouvidos. Ela não percebia que temos conosco a vida que procuramos, a mulher da porta ao lado.

Danielle Arantes Giannini

18/01/17

croniquinhas… arqueologia do lixo

Os arqueólogos descobriram um verdadeiro tesouro: o lixo! Enfim teriam pistas dos hábitos alimentares e outros costumes dos antepassados. Menos sorte terão os arqueólogos do futuro quando encontrarem nosso lixo. Lixo atômico cibernético de zinco e lítio com sobras de garrafa pet, celulares e laptops. O legado da nossa civilização.

Danielle Arantes Giannini