Banco de personagens: A moça do cabelo branco

A moça não queria ser nada além de um amontoado de lembranças sem cor, só para poder viver sem doer, com a alma pura e calma. Mas aconteceu de ser ela um depósito empoeirado de memórias ainda cheirando a decepção. Por isso perambulava em lentidão pelo corredor do apartamento em desordem. Onde arrumar empenho para organizar cabides, caixas e gavetas? Tudo era peso e vagar na existência da moça. Precisava pintar os cabelos que já lhe caíam brancos pelo canto do olho.

 

Danielle Arantes Giannini

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Banco de personagens: A mulher da casa ao lado

 

Não cansava daquela mania de lastimar-se. A mulher da casa ao lado praguejava contra o passado, contra o presente, contra o que nem tinha acontecido ainda. A pobre coitada tinha por certo o que ia acontecer, parecia que consultava um oráculo. Sempre eram maus presságios. E a mulher resmungando em voz alta, que eu ouvia do outro lado da parede. Era isso dia após dia, cansava-me os ouvidos. Ela não percebia que temos conosco a vida que procuramos, a mulher da porta ao lado.

Danielle Arantes Giannini

18/01/17

O céu na minha cidade está negro

ceu negro

 

Olhei para o céu e vi que estava desabando negrume sobre os passantes. Tratei de passar rápido. Tinha afazeres para o dia. Era meu segundo dia de disciplina, não podia falhar. Portanto parar e esperar o futuro do céu não estava nos meus planos. Pensei que minha vida devia continuar, assim como todas as vidas devem continuar mesmo quando o céu está pesado, pesaroso, pois os problemas e as soluções existem apesar do céu.

Então segui adiante.

Danielle A.Giannini

Banco de personagens: Maria Ricota

Que efeito devastador teve aquele acontecimento da vida normal de uma moça tão jovem. Não era uma vida pacata, também não era tumultuada, era apenas uma rotina. Rotina cansativa, estressante; às vezes ela se descompensava e gritava com as paredes ou com pessoas mesmo; outras vezes meditava na mais pura calma por alguns minutos. Levava a vida de todos os dias sem revolta, com sonhos, projetos que nunca saíam do papel e coisas assim. Quando leu a longa mensagem no celular, foi tomada por um tremor nas mãos, falharam as pernas, parou de circular o sangue, o ar não entrava nos pulmões. Ernesto estava deixando Maria Ricota para aventurar-se com outra mulher. Bem mais rica. Bem mais cuidada. Bem menos atarefada. Bem mais perfumada. Avisou pelo celular mesmo. Nem voltou para pegar as peças de roupa e os livros. Nunca mais ela ouviria falar daquele homem abjeto. Tanto melhor. Maria Ricota abandonou a rotina já sem sentido, virou artista plástica, modelava cerâmica, tecia mantas coloridas, aprendeu a tocar piano e conheceu um amor virtual. Não sabia seu cheiro, mas ouvia a voz, via o corpo nu do tal homem, recebia mensagens de bom dia e boa noite, sabendo que jamais o encontraria, viviam em países distantes. Finalmente um relacionamento seguro. Falavam em outro idioma. Maria Ricota não imaginava o tanto que duraria esse amor.

 

Danielle A. Giannini

Banco de personagens: Malu, Malu!

Quem disse que Malu acordou cedo e foi trabalhar?! Que nada, Malu acordou tarde, tomou um copo de leite gelado sem o achocolatado, vestiu qualquer coisa, colocou duas ou três peças na bolsa e saiu feliz da vida com a chave do carro na mão. Não foi vista mais na rua, no trabalho, na academia, em lugar nenhum. Malu desceu a serra e foi comer uma porção de camarão à beira da praia. Naquele dia salvou seus nervos doentes.

Danielle A. Giannini

Banco de personagens: Dona Odila descobre a Internet

Ê, Dona Odila! Adora fazer cursos essa mulher. Depois que se aposentou, tem todas as tardes tomadas com aulas disso e daquilo. Já aprendeu a fazer macramê, decoração de bolos de festa, pintura em porcelana; tentou até um curso de tarô, mas esse não teve jeito de aprender. A última novidade foi o curso de Internet, ideia sabe de quem? Não foi  do netinho viciado em jogos online, foi do folheto que distribuíram na banca de jornal. O netinho achou engraçado a avó aprender a usar o computador, escrever e-mails e tal, e deu o maior incentivo; pediu até para seu pai comprar um laptop para a avó. Assim aconteceu. Renato, filho de Odila e pai do netinho querido da vovó, comprou a traquitana nova e Dona Odila fez o curso, amou! A nova? Acabou de criar um perfil no Twitter, com a ajuda do neto ainda, mas está adorando!

Danielle A. Giannini

Banco de personagens: Juvêncio J. e a gravidade do seu pensar

Ou a gravidade do seu penar? Do seu pesar? Do quê? Esse homem pensa que só ele serve, só ele é justo, só ele sabe o que é certo, e todas as pessoas estão erradas; na verdade, ele acredita de todo mundo está a mais no mundo, posto que ele é o todo. Juvêncio J. resolveu não gostar mais das pessoas porque elas sempre atrapalham. É o motorista do carro da frente que não o deixa passar. É a atendente do supermercado que demora. É o governo que não faz nada direito e só cria dificuldade. É o motoboy que esbarra no seu carro. É uma porção disso e daquilo, que faz medo. Não consegue ver nada de bom em ninguém esse homem. Talvez ele se baste e não precise nunca de ninguém mesmo. Vamos ver.

Danielle a. Giannini