Sobre a impetuosidade das ideias

Sobre a impetuosidade das ideias_imagemeditada

Se as ideias despontam na mente, temos duas opções, colocá-las para fora ou taparmos cada uma delas com uma pá de cal do esquecimento.

Às vezes funciona deixarmos largadas em qualquer canto inútil e inerte do pensamento, outras vezes a estratégica não dá certo, aí elas voltam a nos assediar com toda força, são vorazes e impiedosas, e enquanto não as expelimos, não há calma que reine no nosso pensar. Pode ser falando, cantando ou escrevendo, não importa, as ideias querem sair.

Vamos tratar aqui das ideias que desejam sair escritas. Em geral, essas ideias são caprichosas, querem perdurar, não se contentam em serem lançadas ao vento. Para essas ideias precisamos dar atenção, e dependendo do caso até recolhimento, para que tomem forma em um texto que mereça ser lido. Seja qual for o gênero que se opte por escrever, as ideias precisam ser domadas, organizadas e reordenadas segundo os critérios da correção e os caprichos da estética, ou os rigores da técnica. Não se pode deixar uma ideia decidir por si só como quer ser exposta em um texto. Precisamos ter pulso firme a assumir as rédeas do nosso texto, impondo o ritmo, o tom e a forma que nos convém. Quando assumimos que somos autores do nosso texto, aí sim as ideias entendem o seu devido lugar. E que sejamos autores decididos, firmes nas decisões, ou perderemos completamente a autoridade sobre elas, pois ideias não são bobas, ficam à espreita, esperando um vacilo, para dominarem o processo de criação. Sendo assim, que venham as ideias, e que sejam boas, e que sejam nossas aliadas.

 

 

Danielle Arantes Giannini

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Grades da criação
Grades da criação

Escrever é tarefa complexa, exige que o sujeito esteja com seus sentidos acionados, apurados; requer paciência e raciocínio minimamente elaborado ( mesmo que seja para lidar com o caos). Escrever não é uma ação involuntária, nem mesmo nos seres mais altamente dotados desse dom. Escrever é uma ação, e como tal, pressupõe uma atitude, a atitude de colocar palavras para fora da mente do ser escrevente, tenham elas sentido ou não para o leitor. Colocar palavras para fora é praticamente impossível quando a mente está encolhida e a inspiração está atrás das grades da apatia. O motivo dessa apatia pode ser muitos: uma preocupação do sujeito que escreve com causas que lhe fogem ao controle e que precisam ser resolvidas; uma enfermidade; um sentimento a ser sentido e não expresso; uma euforia enquietante; falta de silêncio ou excesso do mesmo; cobranças do mundo externo e tantas outras. Vem a apatia que amortece a mente do indivíduo e lá se vai aquientando a inspiração, submissa à falta de desejo, entregue à incapacidade de reação. Tal situação pode durar minutos, horas, dias ou muito mais. Quanto maior sua duração, tanto mais graves as consequências: ideias retidas se perdem, se confundem, se mesclam, se apagam, se apertam, se comprimem, se ocultam … é custoso depois dar ordem às palavras. Porém o sujeito que escreve está à mercê dessa situação e não tem como se prevenir dela diante dos imperativos da vida. Nesse período ele não escreve, quase não lê, nem pensa com lucidez, nada, é tão somente um sujeito sem ação à esperada de dias melhores.

Danielle A. Giannini