Venha cá, inspiração querida!

cafe-inspira

Reservei parte do meu dia para escrever. Livrei-me dos compromissos na rua, cheguei em casa, vi bagunça espalhada e fui dar uma ajeitadinha. Casa limpa areja a mente. Bem, como havia uma pilha de livros e papéis sobre a mesa, achei por bem guardar o que não era urgente e jogar fora o que não prestava. Já que fiz isso na mesa, resolvi fazer também no escritório todo, assim rapidinho. Três sacolas de papéis picados depois, uma hora e meia tinha se passado. Ótima a sensação de leveza. Como é bom desvencilhar-se de inutilidades! Só que depois doeram-me as pernas, veio a fome, mensagens de amigos distantes pelo celular, banho relaxante e finalmente chegou nosso momento, eu e ele, o teclado do computador. E nada. Zero inspiração. O avançado da hora, pra mais de onze e meia da noite, não me recomendava nada à base de cafeína. Era eu e a tela branca, eu e as palavras fugidias. As palavras resolveram zombar do meu cansaço, cruzaram todas elas as pernas e recusaram-se a me servir. Quem sabe ler umas páginas ajuda. Estou com algumas leituras abertas: Manoel de Barros, Cecília Meireles, um livro sobre a Doutrina de Buda e uma obra sobre psicologia espírita, de Joanna de Ângelis. A ver de onde vem a inspiração, esta que me renega justo hoje que me guardei para ela!
E o celular não para de fazem plim-plim…

Danielle Arantes Giannini

Se a mente estiver negativa, pode ser ruim…ou não! Leia em https://doreseganhos.wordpress.com/2017/01/18/tirando-vantagem-das-negatividades/

Próxima pegada

Texto-presente de André Santana para Palavras sobre Palavras

imagem texto andre santana

Ele estava vindo nesta direção.
Chapéu na mão,
andar lento e sem nenhuma pressa.
Cá entre nós,
a vida é assim.
Constante e sem pressa…
Ao olhar para trás,
ficam somente as pegadas.
Em breve elas sumirão.
Seja na próxima poeira,
próxima chuva,
brisa
ou mesmo próxima pegada.

(André Santana – http://assandre.wix.com/andresantana)

 

 

 

Grades da criação
Grades da criação

Escrever é tarefa complexa, exige que o sujeito esteja com seus sentidos acionados, apurados; requer paciência e raciocínio minimamente elaborado ( mesmo que seja para lidar com o caos). Escrever não é uma ação involuntária, nem mesmo nos seres mais altamente dotados desse dom. Escrever é uma ação, e como tal, pressupõe uma atitude, a atitude de colocar palavras para fora da mente do ser escrevente, tenham elas sentido ou não para o leitor. Colocar palavras para fora é praticamente impossível quando a mente está encolhida e a inspiração está atrás das grades da apatia. O motivo dessa apatia pode ser muitos: uma preocupação do sujeito que escreve com causas que lhe fogem ao controle e que precisam ser resolvidas; uma enfermidade; um sentimento a ser sentido e não expresso; uma euforia enquietante; falta de silêncio ou excesso do mesmo; cobranças do mundo externo e tantas outras. Vem a apatia que amortece a mente do indivíduo e lá se vai aquientando a inspiração, submissa à falta de desejo, entregue à incapacidade de reação. Tal situação pode durar minutos, horas, dias ou muito mais. Quanto maior sua duração, tanto mais graves as consequências: ideias retidas se perdem, se confundem, se mesclam, se apagam, se apertam, se comprimem, se ocultam … é custoso depois dar ordem às palavras. Porém o sujeito que escreve está à mercê dessa situação e não tem como se prevenir dela diante dos imperativos da vida. Nesse período ele não escreve, quase não lê, nem pensa com lucidez, nada, é tão somente um sujeito sem ação à esperada de dias melhores.

Danielle A. Giannini

Pintura das palavras


Vi com uma admiração sem tamanho como este pintor cuidava de seu jardim. Um delicado e branco jardim de margaridas. Não quis incomodar o rapaz, por isso não conversei com ele; apenas um clique rápido, com o telefone mesmo, e retirei-me para admirar a cena a certa distância. Não gosto de interromper quem quer que seja em sua criação, em sua arte, em sua sensibilidade. Para ser honesta, tampouco gosto de ser incomodada quando estou criando, seja o que for. As pessoas à minha volta já se acostumaram quando eu digo: “espere, estou criando”. Pode parecer pedante, mas não, é apenas minha franqueza, querendo dizer “ei, estou pensando em algo e se eu parar agora, vai tudo por água baixo”. Deve ser assim com todo mundo que cria, embora haja aqueles muito gentis, que não sabem dizer “afastem-se, por favor”, e o que devem sofrer com isso. Também tem gente que gosta de ser visto enquanto pinta um quadro ou faz um desenho; cada um é cada um. O que eu quero mesmo comentar hoje é a leveza da criação; ela que mobiliza todo o corpo. Veja, o rapaz da foto, que harmonia, como seu corpo fala que ali alguém está inteiramente mergulhado na sua arte. Escrever é assim, requer postura de mãos, de coluna, postura de mente. Não vejo como escrever desleixado, de cabeça para baixo e pés para cima do sofá, pelo menos eu não consigo. É questão de organizar corpo, mente e sensibilidade, predispor-se à inspiração, para acontecer o processo mágico e poderoso da criação, como se a cada texto fôssemos pintar um jardim de margaridas. Se quer escrever, vamos às nossas margaridas!

Por: Danielle Arantes Giannini

Um cheiro adocicado

 Um cheiro que me persegue, um aroma, doce intenso, talvez perfume, talvez não. Percebo por onde ando, dentro da casa fechada, este mesmo cheiro. Pensei que fosse o cheiro da inspiração, da criação possivelmente. Cheiro que não tem nome, apenas cheiro. Intrigante, além de cheiro. Fui sentindo com o sentido apurado de um olfato sem certeza. Não saberia reconhecer o tal perfume, tampouco cogitar sua origem, porém estava ali, em volta de mim, o cheiro. Pus me a verificar na memória olfativa que outro cheiro se assemelhava àquele, sem sucesso, posto que o tal cheiro preencheu minhas lembranças todas. Nem tinha uma cara, um jeito de andar, uma consistência, era cheiro e pronto, bastava. Bastava-se. Um cheiro entrou na minha casa, instalou0se na minha vida por questão de minutos, minutos longos, e partiu sem que eu me apercebesse. Quando nos acostumamos com um cheiro, ele fica invisível. Quisera fosse um anjo o portador de aroma tão delicioso, um desses anjos que passam para nos visitar sem deixar rastros … será que deixam cheiros? Agora na casa só restou o cheiro da casa, aquele que só se sente depois de longo tempo fora, ao abrir a porta, e mais nada.

Danielle Arantes Giannini

O desafio da página em branco

Por onde começar quando tudo o que se vê à frente é o mais completo, alvo e por vezes desesperador branco? A tela branca, as paredes brancas do museu, a página em branco, tudo branco. Seria mais conveniente perguntar então: começar ou não começar?

Nem sempre o começo é difícil, situações estas em que o branco é um convite, um deleite, uma sensação de liberdade ímpar. Outras vezes o branco intimida e aí os bloqueios ficam à vontade, intrusos da criação.

Lembro-me de ter me invocado com uma página em branco algumas vezes, não muitas porque vou logo preenchendo todo branco com letras e mais letras, entretanto sei que devo saber quando o branco não quer nada sobre ele, nem palavras, nem quadros, nem notas musicais, não quer e ponto.  Começar ou não começar?

Nunca concordei com a desistência da criação diante do nada do início. Dá para adiar, sem previsão, não desistir. Complica quando não se pode escolher, seja porque tem data para abrir a exposição ou prazo para a entrega das ilustrações, do texto pronto e outros compromissos mais. Quando é assim, se a parede não quer um quadro, o curador vai ter que encontrar uma saída, os desenhos vão brotar no papel e as palavras precisam vir à luz, urgente, para ontem. Pronto, já está a criação nas mãos do tempo, sem o subterfúgio do adiamento, da falta de inspiração, e inspiração não é coisa que se compre em cápsulas na farmácia.

Então está feito, é o tempo que pode dominar o branco, ainda mais o tempo curto. Tem gente que se inibe, mas se a criação tem que sair, tem outro jeito?