Próxima pegada

Texto-presente de André Santana para Palavras sobre Palavras

imagem texto andre santana

Ele estava vindo nesta direção.
Chapéu na mão,
andar lento e sem nenhuma pressa.
Cá entre nós,
a vida é assim.
Constante e sem pressa…
Ao olhar para trás,
ficam somente as pegadas.
Em breve elas sumirão.
Seja na próxima poeira,
próxima chuva,
brisa
ou mesmo próxima pegada.

(André Santana – http://assandre.wix.com/andresantana)

 

 

 

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croniquinhas… a colheita

 Como se fosse o primeiro dia de sua vida, instalou-se discretamente no aconchego das horas que custavam a passar. Ficou ali não se sabe quanto tempo, até a poeira sacudir sua presença para fora. Achou ruim, ficou bravo mesmo, tal era seu desejo de permanecer inerte no mundo. Mas não teve outra saída senão pegar uma enxada e tratar de não morrer. Não tinha o direito de morrer sem conhecer as pessoas, não tinha o direito de recusar a entrada do oxigênio por suas narinas teimosas, por onde penetrava o cheiro da humanidade toda. Era o seu cheiro. O cheiro de tudo quanto há no mundo, da poeira que decanta e da refeição quente. Nunca mais pôde retirar-se ao desassossego dos devaneios de jovem. Já era maduro o fruto, era inconsistente, porém maduro quase além da conta. Lá se viu ele às voltas com a colheita, nem fartura, nem privações, apenas grãos. Nem grandes, nem pequenos. Apenas grãos. Recolheu os grãos, as horas, o frio, o medo, a felicidade e quis caminhar a passos largos. Era tarde demais. E como fosse o último dia de sua vida, lamentou.

Danielle A. Giannini

Oficina da Palavra

 

Começa no dia 17 de março o Ateliê Permanente de Criação Literária, promovida pelo escritor Luiz Brás, na Oficina da Palavra Casa Mário de Andrade. Os interessados podem frequenter os encontros que desejar, bastando para isso realizar as inscrições com antecedência. No primeiro módulo do Ateliê, que acontece entre os dias 17 de março e 27 de maio, o foco serão os gêneros conto e crônica, com atividades práticas de redação e leitura crítica, intercaladas com a apresentação e a análise de clássicos da literatura.

Serviço: 

Ateliê Permanente de Criação Literária Casa Mário de Andrade
Rua Lopes Chaves, 546 – Barra Funda, tel. (11)3666-5803


Bibliotecas lindas de ver, de entrar, de ler …

Está circulando na Internet uma lista das livrarias mais bonitas no mundo, segundo o site Flavorwire. Vi as fotos e ma delas está bem aqui pertinho de nós brasileiros, a Livraria da Vila. São mesmo lugares incríveis. Por mim, eu sairia daqui hoje mesmo para fazer uma peregrinação nesses templos do saber. Aí vem a questão: os livros que elas acolhem, exibem e oferecem também são bonitos? Bonitos de ver e de ler? Não tenho dúvida de que as edições atuais são lindas, muitas de qualidade primorosa, a começar do papel. E o que tem escrito neles? Coisas lindas, interessantes, fascinantes, educativas, ilustrativas, sim, tudo isso e mais um monte de besteiras editoriais que não é pouca coisa. Mas está tudo bem, acho mesmo que as criaturas desse mundo devem escrever o que quiserem (oh, desde que não firam os preceitos morais da nossa sociedade!) e as outras criaturas devem ler o que quiserem. Assim é justo regular o mercado dos livros, pelo interesse de quem lê. Ponto importante esse, pois não sei bem quem regula esse gosto do público, que entidade divina norteia as decisões dos editores de publicarem isso e não aquilo, que raio atinge o cidadão que decide comprar o bestseller ou o livro escondidinho na prateleira. De todo jeito, vivemos em uma sociedade mais ou menos livre e ter livros para escolher já é bom. Se os livros comprados forem lidos, tanto melhor, ainda mais se forem boas leituras, aquelas úteis, instrutivas ou instigantes. No mais, continuo aqui desejosa por conhecer aquele bocado de lugar bonito onde se vendem livros, talvez a melhor mercadoria que o homem já inventou.

http://flavorwire.com/254434/the-20-most-beautiful-bookstores-in-the-world

Nem mais, nem menos

Acabou o ano, praticamente. Quem leu, leu; quem não leu … vai ler no ano que vem, vai também começar uma dieta e matricular-se na academia. Quem gosta de livro simplesmente pega um e lê. Quem gosta de academia vai lá e malha. A dieta já parece mais complicada! Dieta de boas palavras, boa literatura, bons livros é que não pode ter no ano que vem. Nosso país tem já tantos defeitos, uns até de fabricação, então não vamos perder também no quesito leitura. Vamos ver os livros, folhear, ler, pensar, ter ideias produtivas e boas (e bondosas!), para fazermos do ano novo um ano melhor!

Salut!

Como nasce o texto V – A leitura


Ler é uma das formas mais eficazes de estar no mundo, de entender o mundo, de fazer o mundo. Apreender o sentido de um texto, seja através de um código verbal ou não-verbal, é a chave para a percepção de si próprio como indivíduo dotado da capacidade de receber mensagens decodificá-las, interagir com os signos e símbolos e a partir de então elaborar um raciocínio que leve a uma crítica, uma dúvida, uma idéia e o que mais a mente quiser. O efeito da leitura pode ser qualquer um, da alegria, satisfação à raiva, revolta ou até indiferença ou indignação frente a textos ruins ou inadequados à nossa possibilidade momentânea de entendê-lo. Também é verdade que quanto mais lemos, mais somos capazes de ler outros textos, textos mais complexos, mais difíceis, mas sutis, enfim, à medida que lemos, vamos nos formando como leitores, num crescente que se inicia na infância para acompanhar o homem sempre.

Se tudo isso funciona para nós, autores, vale na mesma proporção para eles, os leitores. No fundo, leitores somos todos nós, embora nem todos sejam ou venham a ser autores um dia. Se pretendemos que o nosso texto seja lido, é melhor considerar a existência do leitor.

Como nasce o texto IV – O Autor

 Se você gosta de escrever e tem facilidade com as palavras, tanto melhor, seus textos terão uma boa chance de serem bons. Se você não gosta de escrever, isso não é um problema tão grande, desde que desenvolva certas competências linguísticas. Gostar da escrita é uma vantagem, porém não é garantia de resultados satisfatórios. O que mais então é preciso para ser um autor?

Antes de tudo, muita paciência e também certa dose diária de leitura, pois sem ler a mente vai se acomodando e as possibilidades de quem escreve se restringem a quase nada, uma vez que não se interiorizam modelos. Modelos são palavras, expressões, estruturas sintáticas e toda gama de variações linguísticas possíveis em um texto. À medida que lemos, automaticamente registramos estes modelos, que nos são acessíveis sempre que necessário. Não que o ato de escrever seja cópia de textos lidos, longe disso, é antes a exploração de possibilidades inesgotáveis constituídas a partir de tudo o que aprendemos e interiorizamos a partir de nossas observações, sensações, experimentações e vivências.

Em suma, é o repertório que se forma ininterruptamente através da vida que vai agir como fator preponderante na confecção de um texto. Por isso, além da leitura acrescentar conteúdo, sem contar outros inúmeros benefícios, ela fornece ferramentas para desenvolvermos a habilidade da escrita. Portanto não ter na leitura um hábito, qualquer que seja o nível desta leitura, é praticamente um tiro no pé de qualquer ser pensante que tenha a intenção de escrever.