Poesias que custam

Apesar de toda mágoa

A poesia estava engasgada

Tinha tristeza de sobra

No entanto a poesia não saía

O papel talvez estivesse branco demais

Intimidou a poesia

Era preciso apressar

Antes que voltasse a alegria.

 

Danielle Arantes Giannini

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O céu na minha cidade está negro

ceu negro

 

Olhei para o céu e vi que estava desabando negrume sobre os passantes. Tratei de passar rápido. Tinha afazeres para o dia. Era meu segundo dia de disciplina, não podia falhar. Portanto parar e esperar o futuro do céu não estava nos meus planos. Pensei que minha vida devia continuar, assim como todas as vidas devem continuar mesmo quando o céu está pesado, pesaroso, pois os problemas e as soluções existem apesar do céu.

Então segui adiante.

Danielle A.Giannini

Palavras são para degustar

degustarA construção do texto guarda semelhanças com o preparo de um prato. Quando pensei isso, talvez eu realmente estivesse com fome, fato é que cheguei à conclusão de que escrever e cozinhar são atos semelhantes, com movimentos parecidos e fins quase idênticos.

O preparo do prato começa efetivamente com a escolha do que vamos comer ou servir. Sim, isso mal foi ao fogo e já está cheirando bem, pois não escolhemos o que queremos escrever antes de pegar papel e caneta ou abrir o editor de texto do computador? Decidido o menu, passamos para a escolha dos ingredientes, e que sejam de qualidade! Um bom azeite, legumes selecionados, condimentos e temperos frescos, tudo interfere no sabor, tal como as palavras apropriadas, construções sintáticas, correção gramatical … Tudo junto, na medida certa, e uma mensagem clara a se transmitir, e voilà um texto delicioso, eficiente, daqueles que matam a fome do leitor. E o leitor quer comer o quê? De tudo, desde o mais calórico hambúrguer até um requintado guisado, passando pelo cordeiro assado, saladinha de folhas verdes, arroz com feijão e tudo que puder ser mastigado e digerido. Com os textos é assim também, o bom de garfo vai aproveitar um bilhetinho para a faxineira, uma mensagem no celular, um orçamento claro e preciso, um relatório esclarecedor e mais, muito mais, um romance envolvente, uma dissertação inovadora, poemas tocantes, enfim, cada leitor com a sua preferência ou necessidade.

Quando nós tomávamos sopa de letrinhas já estávamos sendo preparados mesmo para essa coisa toda da escrita, não era conversa fiada das nossas mães, não.

Um cheiro adocicado

 Um cheiro que me persegue, um aroma, doce intenso, talvez perfume, talvez não. Percebo por onde ando, dentro da casa fechada, este mesmo cheiro. Pensei que fosse o cheiro da inspiração, da criação possivelmente. Cheiro que não tem nome, apenas cheiro. Intrigante, além de cheiro. Fui sentindo com o sentido apurado de um olfato sem certeza. Não saberia reconhecer o tal perfume, tampouco cogitar sua origem, porém estava ali, em volta de mim, o cheiro. Pus me a verificar na memória olfativa que outro cheiro se assemelhava àquele, sem sucesso, posto que o tal cheiro preencheu minhas lembranças todas. Nem tinha uma cara, um jeito de andar, uma consistência, era cheiro e pronto, bastava. Bastava-se. Um cheiro entrou na minha casa, instalou0se na minha vida por questão de minutos, minutos longos, e partiu sem que eu me apercebesse. Quando nos acostumamos com um cheiro, ele fica invisível. Quisera fosse um anjo o portador de aroma tão delicioso, um desses anjos que passam para nos visitar sem deixar rastros … será que deixam cheiros? Agora na casa só restou o cheiro da casa, aquele que só se sente depois de longo tempo fora, ao abrir a porta, e mais nada.

Danielle Arantes Giannini

Palavra do dia: “CONFIANÇA”, um substantivo difícil

 É fácil, fácil perder a confiança em alguém ou algo. Conquistá-la é tarefa por vezes árdua, trabalhosa, demanda tempo e paciência, além de algumas decepções.  Confiança não é algo que se encontre aos borbotões, é antes uma predisposição para aceitar que o outro não vai lhe causar problemas, danos físicos ou emocionais, prejuízos de qualquer natureza. A melhor imagem que tenho da confiança é o próprio ser humano, quando ainda é bem pequenininho! Os bebês confiam incondicionalmente nas mães porque não saber desconfiar. Acostumam-se desde o período da gestação a confiar na alimentação que recebem, no aconchego e tal. Depois que nascem, deixam-se confiar nos braços das mamães, recebem-lhe o leite materno, roupas, banho, colo, afagos e outros mimos. Crescem e vão aprendendo a andar, falar e desconfiar. Opa, algo corrompe o ser humano durante sua vida e o priva da confiança. Deixa de confiar no amigo, na professora, no brinquedo que quebrou tão rápido … talvez deixe de ter confiança na própria mãe; aprende por meios variados que se tiver confiança nos políticos será enganado; se confiar no colega de trabalho será trapaceado, e por aí vai. Agora pergunto-me se a confiança é uma virtude, algo bom de se ter, do tipo que acalma a agente, ou se é bem ruim e perigoso, o que nos predisporia a esperar um golpe a qualquer momento. Então penso, penso e  concluo  que existe a confiança boa de sentir, como aquela do bebê que se vê seguro no colo da mãe, e a confiança perigosa, que vai acabar mal, como confiar em alguém que lhe dá um papel em branco para assinar. Ou um exemplo atualíssimo, como vou confiar em alguém que pede para eu preencher um cadastro com meu endereço eletrônico, com a garantia de que a informação será para uso próprio, e logo depois quilos de e-mails começam a chegam com spams e mais outras lorotas?! E percebo que a tarefa é mesmo dura. Temos que escolher em quem confiar! Fico torcendo para que os homens, políticos e não-político, se esforcem realmente para conquistarem a boa confiança de nós todos, sem fazerem pouco desse substantivo tão difícil. Danielle A. Giannini

Palavras sobre esse mundão : “RESPEITO”

Não que seja uma palavra praticada, mas ela existe em todos os dicionários. Às vezes é com conferir se o termo não foi surrupiado do “pai dos burros”, sim, pois não tem sido incomum as pessoas se esquecerem de carregá-la no bolso. Respeito parece algo que oscila entre o careta e o nobre; para uns é coisa de gente boba e para outros, graças ao bom Deus, é valor que se usa à mesa! Nem vou perder tempo em traçar considerações sobre o respeito às leis, argh, isso é difícil em um país onde há tantas leis regulando absolutamente tudo na vida dos cidadãos. Quero me ater ao respeito pelo próximo. Também não quero me abalar comentando o respeito que o poder público deveria ter pelos indivíduos; isso é assunto que nos tira do sério. Vou falar somente de pessoas, assim mesmo, pessoas anônimas transitando pelas ruas, umas a pé, outras de carro, de ônibus etc. Com tanta pressa que elas têm, fica até previsível que esqueçam em casa uma carga tão pesada como o respeito, mas a verdade é que não é nada agradável quando alguém não nos dá passagem, não segura a porta do elevador, não pede “por favor”, não diz um mísero “Bom Dia”. Por que não fazem uma campanha: “não esqueça o respeito em casa, você pode precisar dele”? Pior se decidirem criar uma lei exigindo que todos usem do respeito, aí o caldo entorna. Então que cada um pratique o respeito por conta própria, quem sabe assim dá certo?!

Danielle A. Giannini

Pensar faz bem…

… para a alma, para o corpo, para a mente! Pensar é bom, não custa nada, só que às vezes os pensamentos saem todos atrapalhados. Aconteceu hoje, depois de mais de ano e meio, de eu me reclinar para pensar. Pensar em qualquer coisa fora da rotina e na própria rotina. Eis que os assuntos saíram de seus lugares, onde estavam estratificados, e se acotovelaram todos, trombaram aqui e acolá, queriam tomar a vez do outro, e nada, nada se organizou na minha mente. Mesmo assim foi bom para relaxar, pois os assuntos se movimentaram no cérebro e deu um alívio. Pensamentos são assim, precisam escapar, mesmo que de por poucos instantes. Se conseguirem ganhar a forma de palavras, então, que euforia. Como estava desacostumada dessa coisa de pensar os assuntos que não estão na agenda do dia – mas deveriam estar – precisei de estímulos, uma piscina cercada de árvores, ouvidos na conversa dos pássaros e duas ou três páginas de um livro maravilhoso “A Vida: Modo de Usar”, de Georges Perec. Quem recomendou foi minha amiga Alessandra há bastante tempo, mas só recentemente a Cia das Letras reeditou o dito cujo. Tentei antes a versão em francês, mas era francês demais para meu vocabulário humilde, para não dizer mínimo. Um deleite ler algo que foi planejado e escrito com a elaboração merecida, principalmente na minha condição de leitora diária de toda sorte de amontoado de palavras … ossos do ofício. Por tudo isso, pensar é bom; escrever, melhor ainda.
Vou reservar um tempo para os pensamentos que hoje se atrapalharam entrarem num consenso e se colocarem em fila, pois há de ter vez para todos!