Banco de personagens: Julieta não comeu morangos

2011-07-20_1311174130Depois da espera de quase um ano, Julieta desistiu. Não compraria morangos nesta estação. Os danados chegaram caros demais, Julieta tinha outras prioridades. Não que fossem exorbitantemente dispendiosos, não que faltasse vontade a ela, era mesmo por acreditar que seu desejo não valia aquilo que estavam cobrando. Poderia juntar o dinheiro de todas as caixas de morangos vermelhos e suculentos que certamente compraria durante o inverno. Preferiu deixar para o ano seguinte, quem sabe a fruta estaria mais em conta. Entrou no estúdio de tatuagens e saiu com um belo morango no antebraço. Finalmente um morango para apreciar em todas as estações do ano.

Danielle A. Giannini

21/07/16

 

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Banco de personagens: Maria Ricota

Que efeito devastador teve aquele acontecimento da vida normal de uma moça tão jovem. Não era uma vida pacata, também não era tumultuada, era apenas uma rotina. Rotina cansativa, estressante; às vezes ela se descompensava e gritava com as paredes ou com pessoas mesmo; outras vezes meditava na mais pura calma por alguns minutos. Levava a vida de todos os dias sem revolta, com sonhos, projetos que nunca saíam do papel e coisas assim. Quando leu a longa mensagem no celular, foi tomada por um tremor nas mãos, falharam as pernas, parou de circular o sangue, o ar não entrava nos pulmões. Ernesto estava deixando Maria Ricota para aventurar-se com outra mulher. Bem mais rica. Bem mais cuidada. Bem menos atarefada. Bem mais perfumada. Avisou pelo celular mesmo. Nem voltou para pegar as peças de roupa e os livros. Nunca mais ela ouviria falar daquele homem abjeto. Tanto melhor. Maria Ricota abandonou a rotina já sem sentido, virou artista plástica, modelava cerâmica, tecia mantas coloridas, aprendeu a tocar piano e conheceu um amor virtual. Não sabia seu cheiro, mas ouvia a voz, via o corpo nu do tal homem, recebia mensagens de bom dia e boa noite, sabendo que jamais o encontraria, viviam em países distantes. Finalmente um relacionamento seguro. Falavam em outro idioma. Maria Ricota não imaginava o tanto que duraria esse amor.

 

Danielle A. Giannini

Arnaldo não podia desistir

Não, não era tarde para desistir. Nem cedo. Não era cedo ou tarde. Simplesmente ele não podia desistir. Não acreditava na sorte, tampouco apostava suas fichas no destino. Queria liberta-se de todo aquele lixo de vida. Lixo que foi acumulando sem nem saber o porquê. Juntou o que pôde, juntou por juntar. Carcaças de carros, livros sem capas, fotografias rasgadas, xícaras lascadas e um bocado de sentimentos inúteis. Acabou que o espaço não dava mais para nada disso. Nada disso nem nada mais. Arnaldo não suportava mais a ideia de juntar o que quer que fosse na sua existência interminável. Desejou por fim na própria existência, porém antes teria que se livrar de tanto peso. Não poderia carregar as tralhas pela eternidade afora. Pôs anúncio no jornal. Espalhou a oferta boca a boca. Ninguém interessou-se. Vida desinteressante ele teve. E agora não conseguia desfazer-se dela. Lamentava não poder desistir. Ele não podia desistir. Não era cedo ou tarde, era impossível. Só restou conformar-se com seus lixos. Viu que lixo de vida tinha e saiu andando pela rua sem destino.

Danielle Arantes Giannini

Por que escrevo?

porquescrevo-imagemEscrevo porque existem palavras. Escrevo porque alivia a alma. Escrevo porque as histórias querem ser contadas. As histórias acontecem independentemente das palavras, são mais poderosas que elas, mas rendem-se a limitadas linhas para sobreviverem além de si mesmas. Duram os instantes da leitura e depois resistem ou não à memória de quem leu. Eu escrevo porque os personagens existem, os lugares existem, diferente do tempo. Cada personagem conta sua própria história como lhe convém. Cada lugar empresta seu clima para que os personagens possam viver suas histórias. O tempo, não. O tempo pode existir, pode não existir. Passa na velocidade que bem entende, ninguém lhe acelera ou detém. O tempo ajuda ou atrapalha ao seu bel prazer. Liberta e escraviza, por vezes toda as rédeas da história. Chuta para longe o autor, faz calar as palavras. Escrevo porque quero dominar o tempo, quero salvar as histórias que nele estão. Eis por que escrevo.

Danielle Arantes Giannini

Banco de personagens: Dinorá esqueceu a data

Todo ano era a mesma coisa. Chegava aquela data e Dinorá se apressava em comprar lembrancinhas. Para um, para outro, para quem nem sabia o nome, lembrava-se de todos, exceto dela mesma. Passada a festividade, a mulher de mais de meia idade, sempre exausta dos seus afazeres, deixava-se cair na poltrona puída por obra do gato siamês. Permanecia ali um dia inteiro, sem forças para subir as escadas, tamanho era o peso do ano todo nas suas costas. Neste ano Dinorá esqueceu a data. Esteve absorta demais cuidando de si, que não teve tempo de ir às compras. Desculpou-se com um, com outro, sentiu um lampejo de vergonha por tamanha gafe, mas só um breve lampejo mesmo, e ficou satisfeita com sua aparência no espelho. Viu o rosto corado, sobrancelhas delineadas, marcas amenizadas na testa; estava bem disposta por resultado da dieta e das aulas de ioga. Como não tinha com o que presentear os conhecidos e desconhecidos, foi para a festividade assim sem culpa. Não preparou o pernil habitual com que ofertava a dona da casa que a convidava anualmente; preferiu passar na doceria para comprar algo que agradasse ao paladar da maioria. Comeu, bebeu, falou alto, riu, desejou Feliz Natal e foi-se embora. Dormiu sono profundo, na poltrona da sala mesmo. No dia seguinte subiria as escadas … leve que só!

Danielle A.Giannini

 

Joana dança

Mal chegou a sexta-feira e Joana estava empenhada nos preparativos. Fez sombrancelhas, depilação, pintou o cabelo de uma cor diferente de sempre e alisou bem lisinho. Fez maquiagem exuberante. Deu uma passadinha para os últimos ajustes na fantasia e correu para a massagista. Joana queria dançar até os pés deixarem. Joana adorava carnaval. Por isso decidiu não trabalhar na sexta-feira. Tinha mais o que fazer. No escritório, ninguém nunca mais deu falta de Joana.

Banco de personagens: Maria Estúpida

O sentimento de ser não existia naquela mulher, dura de coração, gélida na alma, feia de traços. Não via nada disso no espelho porque não gostava de se olhar. Maria Estúpida ficou conhecida assim, ninguém sabia seu nome verdadeiro; também isso não importava, era estúpida. Não que lhe faltassem predicados. Diziam que a moça era prendada, fazia trabalhos manuais, tinha noções de enfermagem, conhecia as burocacrias das repartições, e nada disso servia. Ela precisava usar seus dons para ser útil e não sabia como. Essa Maria Estúpida, respondona e reclamona. Os garotos da vizinhança gostavam de provocar a Estúpida, só para se divertirem com a reação dela.  Ninguém mais perdia tempo se aborrecendo com suas chatices.

Danielle A. Giannini