Banco de personagens: Eduardo tinha tanto para dizer

Não conseguia, não dava mesmo, não tinha jeito e não encontrava a menor palavra que fosse, e tinha tanto para dizer. Eduardo estava sofrendo sinceramente com aquele tormento, se bem que era um sofrimento recolhido, desses que ninguém fica sabendo. Não sei se isso ameniza ou agrava o sofrer. Era descabido o caso de Eduardo porque ele era teimoso, só servia dizer o que ele precisava se encontrasse os vocábulos perfeitos. Nenhum servia. Estava virando uma constante, todo dia na mesma hora, quando a moça da bolsa cor de rosa passava, pronto, punha-se a suar pelas mãos o coitado.

Danielle A. Giannini

Banco de personagens: Livia e seu pacote

O pacote era leve, leve e importante. Livia carregava aquilo como se fosse a única coisa que interessasse na vida. E era. O que mais podia valer tanto? Era seu regozijo. Chegando em casa, aparentemente sem pressa, mas desejosa de abrir o saquinho de papelão, pendurou a bolsa na cadeira da sala, tirou os sapatos, calçou uma sapatilha confortável, lavou as mãos, puxou a cadeira da cozinha e respirou fundo, olhos fechados, sentiu o aroma. Tirou do pacote uma caixinha branca com lacinho de cetim dourado, desamarrou a fita e apreciou demoradamente os macarrons coloridos. Eram quatro. Comeu todos eles, um a um, e foi se deitar. Dormiu bem naquela noite.

Danielle A. Giannini

Banco de personagens: Agenor parou

Nunca dava atenção a ninguém nem a nada que não fosse um de seus inúmeros compromissos. Precisava ganhar a vida e isso era o bastante, talvez fosse muito para um homem atribulado. Todo dia era a mesma coisa, chateação no trânsito, brigas e brigas com o funcionário Muniz, que demorava mais de meia hora para almoçar, e atrasos, nossa, quantos atrasos. Não dava tempo de cumprir toda a agenda e isso perturbava demais esse homem de pouco mais de trinta anos, sem família constituída e sem horas de lazer. Outro dia no congestionamento, quase enlouqueceu de raiva com o celular que não queria funcionar, e precisava falar com uma pessoa urgentemente. É, não tinha jeito, o veículo nem saía do lugar, e Agenor decidiu abrir a janela e olhar para o lado. Viu a cidade pela primeira vez. Viu o parque à sua direita, um parque enorme, cheio de gente naquele fim de tarde. Quis estar lá. O cérebro de Agenor quase entrou em colapso.

Danielle A. Giannini