Antes de escrever

antes de escrever

Se existe uma coisa cheia de caprichos, é a escrevinhação. Você pode ter a prepotência de pensar que é só chegar, sentar, abrir o caderninho de notas ou ligar o computador e pronto, palavras vão brotando do nada, todas na sequência certa, encadeadinhas, fazendo sentido. Ilusão isso. Escrever é uma tarefa que não divide a atenção com nada. Ou o sujeito de concentra no que vai escrever ou não escreve, simples. Vou antes até, quando você decide escrever e quer fazer isso em qualquer lugar, com pessoas, com barulhos, com movimento, com lista de compromissos na cabeça, com isso com aquilo…nada feito. Parece que palavra, para nascer, quer o ambiente preparado só para ela, sem coisas que dispersam. Não se pode prestar atenção em nada mais a não ser nas palavras que vão para o texto. As conexões cerebrais só acontecem com o devido preparo. Ideias que foram sendo maturadas, estilo que foi programado, metas estipuladas, tudo sob controle, para que possa nascer o texto, até mesmo quando é a vez do improviso, esse senhor mimado que não surge do nada, só aparece em terreno adubado. Mas esse é outro assunto. Quero falar daqueles dias que o textos que quer (ou precisa) surgir fica engasgado e o mundo parece que conspira contra. Não dá para lutar. É hora de se render, deixar as coisas se acalmarem, esperar o agito acabar e então invocar as tágides do Tejo para por-se a trabalhar. Medir força com as palavras é bobagem!

Danielle Arantes Giannini

croniquinhas… a colheita

 Como se fosse o primeiro dia de sua vida, instalou-se discretamente no aconchego das horas que custavam a passar. Ficou ali não se sabe quanto tempo, até a poeira sacudir sua presença para fora. Achou ruim, ficou bravo mesmo, tal era seu desejo de permanecer inerte no mundo. Mas não teve outra saída senão pegar uma enxada e tratar de não morrer. Não tinha o direito de morrer sem conhecer as pessoas, não tinha o direito de recusar a entrada do oxigênio por suas narinas teimosas, por onde penetrava o cheiro da humanidade toda. Era o seu cheiro. O cheiro de tudo quanto há no mundo, da poeira que decanta e da refeição quente. Nunca mais pôde retirar-se ao desassossego dos devaneios de jovem. Já era maduro o fruto, era inconsistente, porém maduro quase além da conta. Lá se viu ele às voltas com a colheita, nem fartura, nem privações, apenas grãos. Nem grandes, nem pequenos. Apenas grãos. Recolheu os grãos, as horas, o frio, o medo, a felicidade e quis caminhar a passos largos. Era tarde demais. E como fosse o último dia de sua vida, lamentou.

Danielle A. Giannini