Narrativas

O vendedor de leques *_Danielle Arantes Giannini

*Título original de autoria do meu amigo virtual Flávio Assub.

Estavam lá os leques coloridos, estampa fina, todos minuciosamente dispostos sobre o chão rude da rua suja e pisada. Eram leques lindos, confeccionados no papel arroz, feitos a mão, mão que o tempo não perverteu ao desuso, mão hábil. Chamavam a atenção pelas cores vivas, assim gratuitas, na calçada do viaduto movimentado. Olhares recebiam aos montes, entretanto ninguém parava, nem um único transeunte estava disposto a sacrificar um segundo do seu tempo esgotado para apreciar tamanha riqueza. Não eram os únicos leques no viaduto; havia outro rapaz mais a frente, com um pano estendido no chão lotado de um amontoado de guarda-chuvas, baterias para celulares, massageadores portáteis e leques. Eram leques todos iguais, coloridos também, de uma estampa chamativa impressa no plástico; não tinha nem como o produto atrair alguém, misturado que estava aos demais artigos, feio e sem graça. Eram leques e nada mais. Leques sem história. Leques que saíram da máquina direto para a embalagem. Leques que estavam identificados pelo papel escrito em letras medonhas: “Abano em promoção – 3 por 10”. Por isso, e só por isso, um tanto considerável de gente, mulheres na maioria, parou o comprou. Estava calor e precisavam se abanar. Não durou muito o estoque do rapaz; fez um dinheiro bom naquela tarde. Vendeu leques como quem traz a salvação. Depois disso ninguém mais parou ali, ninguém se interessou pelos leques mais a frente, na mesma calçada, encantadores. Não que tivesse acabado o calor, não, estava abafado. O vendedor de leques coloridos, findo o dia, recolheu quase que com carinho sua mercadoria, nenhuma venda. Resignou-se, apenas lamentou não serem leques dignos de cumprirem sua tarefa. Homem de idade avançada, não velho, mas manso no pensar, o vendedor de leques recolheu-se ele também ao casarão antigo onde vivia desde a mocidade com seus pais, que lhe ensinaram a tirar o sustento das próprias mãos. Entrou pelo corredor estreito sem perceber o leque branco que caiu na soleira da porta. Nem o vento quis levar o leque em respeito a tanta beleza. Foi uma mulher que passou, viu o desenho de linhas finas e parou. Pegou o leque nas mãos. Quem teria perdido aquela joia?  Ninguém por perto. Sem resistir, seguiu com o leque em punhos. Agora era dela, e o exibia orgulhosa, para atrair mesmo a inveja dos outros; sabia o quanto era valioso o seu achado. Por pouco não sentiu o cheiro das mãos do vendedor de leques, por bem pouco. Sim, o cheiro dele estava lá, quase apagado; a delicadeza dele estava lá, quase ignorada; o pensamento dele estava lá, quase inaudível; a história daquele homem estava em cada grão de papel daquele leque, para sempre. A mulher quase se deu conta de que estava ali em suas mãos toda a razão de viver de um homem, sua alma completa e despreparada.

 

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Mulher sem boca _ Danielle Arantes Giannini

De manhã, abri a porta do elevador e dei de cara com a mulher, mulher sem boca, bem cedo, bom dia. Expeli a saudação matinal aos sussurros e virei de costas porque a falta de boca da mulher me incomodou. Ela só tinha testa, dois olhos ainda inchados do sono e um nariz qualquer. A falta de boca chamava a atenção. Pensei que tipo de mulher seria aquela, saiu de casa sem colocar a boca. Mulher apressada certamente, mulher descrente de tudo, afinal para que a boca se nada na vida sai como planejado, mulher sem vaidade talvez. Podia ter se servido de um mísero batom e não o fez, sabe-se lá o por quê.

Saí do elevador com passo apressado, igual gente importante, para não me perder mais em conjecturas sobre a boca que a mulher não tinha. Mas não teve jeito, vi tantas bocas desfilando nas ruas, que foi impossível deixar de notar, nunca as bocas tinham se feito tão presentes.  Para espanto meu, observei que outras mulheres andavam sem boca; fosse a falta de uma bolsa, de sapato até, mas sair de casa sem boca era o fim. A variedade de bocas que passou por mim foi enorme, bocas de todos os tipos e tamanhos, bocas grossas, finas, ágeis, molhadas, ressecadas, moles, caídas, risonhas, todas bocas.

Em poucos minutos deu para notar que a boca da moda era a carnuda, estava à venda nas melhores lojas do ramo, injetável, fácil de aplicar. Essa boca impunha respeito, dava segurança às mulheres, afinal não era um mero traço abaixo do nariz, era volumosa, esbanjava sensualidade. Imaginei que palavras saíam daquele tipo de boca. Nem todas as bocas que as mulheres carregavam eram exuberantes assim, havia outras mais modestas, não tão intensas. Eram mulheres que escondiam suas bocas normais atrás de cores variadas, umas brilhantes, em tons de rosa, marrom, carmim. As bocas vermelhas, caprichosamente desenhadas, deviam levar um bom tempo até ficarem prontas para sair à rua; ainda bem que para o caso de emergência as cores podiam ser reaplicadas a qualquer momento e em todos os lugares, com o perdão da etiqueta.

Triste mesmo foi esbarrar em uma boca rachada, não sangrava, mas tinha um couro grosso, ressecado, não via água há quanto tempo, cogitei. A mulher que a transportava estava com olhos cansados, talvez estivesse ela mesma rachada por dentro.

Conforme eu caminhava, mais bocas apareciam, situação insuportável essa de topar com bocas aqui e ali, bocas assim e assada; se fossem os olhos a saltar do rosto das pessoas, mas eram bocas. Bocas que se movimentavam freneticamente, outras lentas, outras ainda fechadas. Engraçado foi ver bocas que executavam risadas, gargalhadas, essas eram bocas que não se importavam de parecer tortas por uns segundos, tempo suficiente para se ver tudo dentro delas, desinibidas. No restaurante, vi uma boca nervosa sentada perto do bufê de saladas, não parava de mastigar alface, nem sei quanto tempo permaneceu ali naquele exercício mandibular. Na mesa ao lado, uma boca severa atracada a um pedaço de carne mal-passada, escorria sangue de animal abatido. No toalete, mais bocas, todas dispostas diante do espelho, sendo redesenhadas, para a salvação das mulheres.

Como havia bocas para escolher, bocas amenas, bocas raivosas, bocas culpadas, bocas que só se dignavam a sussurrar qualquer coisa indecifrável ao serem interpeladas por outras bocas, bocas masculinas também, de tipos variados, mas nem tanto. De umas saíam músicas, de outras lançavam-se impropérios,  umas permaneciam em posição de bico por longo tempo, algumas não era bocas. Depois de bocas e bocas, nada me chocou tanto naquele dia quanto a boca que vi sendo carregada como um fardo por uma senhora que vestia trapos e nada mais, era uma boca cor de pele, sem dentes… uma boca sem dentes,  nada entrava nada saía daquela boca maltratada. Lembrei-me imediatamente da mulher sem boca no elevador e concluí que era melhor não ter boca a ser portadora de uma boca sem dentes. Nunca mais saí de casa sem verificar no espelho se estava carregando minha boca comigo, para o caso de precisar.

(texto publicado no site Comunique-se em janeiro de 2008)

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Corpo fino _ Danielle A. Giannini

Definitivamente, aquilo não era corpo que se apresentasse. Não que não fosse belo, chamava a atenção. Esguio, como todo corpo deve ser de acordo com as revistas da moda, esbelto, liso, seco. Cheguei a questionar se era um corpo que andava na rua ou um vulto. A garota que ocupava este corpo não tinha mais de treze anos, ainda que a altura não revelasse a idade. Parecia feliz.

Na minha perplexidade egoísta de quem quer achar aquele corpo estranho, ouso olhar atenta os passos da menina, como que para me convencer de que o estranhamento é necessário. É difícil entender como o corpo não dobra, não quebra, não cai do salto, e que salto! Depois me pego pensando no esforço que a garota teria feito para conseguir toda aquela esbelteza. Fosse no tempo da minha mãe, diriam que era doente, acudiriam a coitada sem demora, encheriam a pança murcha com receitas infalíveis dos antigos até ela ficar roliça, com as maçãs rosadas e braços fofos. Se a garota pudesse ler estes meus pensamentos, me odiaria, sairia correndo, se bem que não estou convencida de que aquelas pernas correm tanto assim.

Continuou andando a menina e continuei olhando, esquecida de minha própria vida, quando a vi cumprimentar o rapaz parado em frente a um café. Olhei mais um pouco. Se um corpo tão fino tinha um encontro, então era de gosto dos homens. Ele a mediu indiscreto, convidou-a a sentar-se com um gesto polido e puseram-se a conversar uma conversa que obviamente não escutei, e nem deveria porque não era da minha conta.

Meses depois eu reconheci o rosto da garota, linda mesmo, naquele corpo econômico, na capa de uma revista. Parecia irreal debaixo de uma maquiagem belíssima, suave, super na moda. Fiquei contente de pensar que ela estaria realizada e quem sabe um dia, depois de fazer as capas de todas as revistas, voltaria a comer uma lauta refeição, daquelas gostosas mesmo, de salivar e satisfazer o apetite. Tomara.

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Bagagem de responsabilidade _ Danielle A.Giannini

Acostumou-se desde menina a andar curvada sob as responsabilidades que jogaram sobre ela. Sua mãe fez o que pôde para dar um bom sustento e uma educação de nível, e dava também sem perceber uma boa dose de peso à menina que nada sabia da maldade humana, apenas que devia ser exemplar, para não dar pano para a manga das pessoas faladeiras. Imagine cometer um erro, o menor deles, seria motivo de desgosto para a mãe já saturada com atribulações dobradas e redobradas, de pai e de mãe ao mesmo tempo, de provedora, de mulher decepcionada com a sorte e desiludida no amor.

Cresceu sem perceber o cansaço; na verdade, cresceu pouco porque estava ocupada em não cometer deslizes. A estafa marcou a aparência frágil com olheiras de décadas que ela não tinha. Para prevenir possíveis atropelos, preferiu acanhar-se, as pessoas definitivamente estariam observando-a para sacar a primeira escorregadela, pessoas inconvenientes e indesejáveis. Aprendeu a não desejar ter pessoas por perto, suspeitava de todas e só aceitava alguma delas com muito custo, desconfiando, para não perder o costume.

As costas foram se curvando mais com os anos sem deslizes, a alegria deslizou para fora do rosto porque a atenção devia ser total nos toques e retoques do cotidiano, o que rendeu à garota uma carga extra de indecisão, não podia se dar ao luxo de escolher errado fosse a cor do sapato, o tamanho da blusa, a profissão, a palavra adequada a cada momento.

Para não errar, acertou pouco. Para acertar, cometeu erros cruciais. Para variar, ficou indecisa.

Depois de grande na idade, notou que o peso que carregava nas costas não era dela, já o segurava havia tanto tempo, não precisava daquelas tranqueiras mentais, não precisava acertar, não precisava submeter-se ao olhar das pessoas inconvenientes. Decidiu, sem hesitar, jogar a pilha acumulada de coisas que não eram dela, coisas chatas como o ideal de perfeição, e seguiu correndo mais leve, até ergueu os ombros sem resistência, mostrou a língua para quem passava e cantou em voz alta uma canção desafinada. Não sabia para onde estava indo, e nem precisava saber porque havia placas no caminho, podia seguir para onde quisesse, não tinha mais a bagagem de idiossincrasias. Gostou de andar assim e nem viu o tempo passar. Caiu a noite e não ligou, chegou o sol empurrando as estrelas parra longe e a moça parou para ver o amanhecer, alaranjado, lindo. Gostou do lugar e resolveu ficar. Permaneceu o quanto quis e partiu atrás de um choro de criança. Assim que encontrou uma pequena garota no colo de uma mãe também garota que portava um gesto de desespero, correu para oferecer seus préstimos. A bebê e sua mãezinha estavam sem comer. Dinheiro ela não tinha nos bolsos, ofereceu-se para colher frutos nos arredores, ao que encheu uma cesta e outra cesta, e as três se regalaram de comer maçãs, laranjas e outras delícias na natureza. Ajudou a preparar uma papinha de mamão e suco de lima para o bebê. Apesar do apelo da jovem mãe para que ficasse, seguiu viagem, sem notar, acompanhada por um cachorro do mato.

Andaram seis dias e seis noites, ela e o cachorro, que não custou a ser notado pela companheira e recebeu o sugestivo nome de Cachorro. Foi bom para os dois, que conversaram mesmo em línguas diferentes, ele latia, ela tagarelava ou cantava, só não conseguia assobiar, e nem se importou com esse pequena imperfeição porque tinha decidido não ser perfeita.

No sétimo dia, chegou num vilarejo de pedras, onde a primavera encheu os vasos espalhados nas esquinas de flores de todas as cores, as lilases eram as mais bonitas. Entrou com o Cachorro na capela de portas abertas de madeira entalhada e cheiro de incenso. Ajoelhou de frente para o altar e chorou, rogando bênçãos para sua vida, grata pelas suas imperfeições. Finalmente não precisava ser perfeita, bastava o que passou tentando evitar falatórios maldosos de pessoas a quem não devia satisfação. Amou profundamente a sua mãe, uma espécie de heroína que graças ao bom Deus também não era perfeita, mas sempre adorável. Saiu de lá para voltar para casa e rever aquela mulher maravilhosa que lhe trouxe ao mundo, levando o Cachorro e umas flores roubadas do mato. Se a mãe não gostasse? Bem, era o melhor que podia oferecer, e de coração. Foi mesmo assim.

Do que aconteceu depois, só se sabe que a moça não tentou convencer a mãe de que o Cachorro era uma boa companhia, o cão que fizesse esse trabalho sozinho, casou-se com um rapaz tranqüilo, acostumado a resolver um problema de cada vez, nunca antes nem depois, tiveram dois filhos, o menino virou cantor, a menina foi viver na Espanha pintando quadros coloridos para enfeitar paredes. O Cachorro morreu de velho e teve honrarias no funeral, como deve ser com os bons amigos. A moça que descobriu que não precisa ser um exemplo para evitar problemas à mãe continuou mostrando a língua para as pessoas, principalmente as chatas e as bisbilhoteiras. Escreveu um livro e outro e outros mais só para contar o que as pessoas fazem da vida, umas carregando bagagens pesadas e outras apenas com bondade a tiracolo. No verão, toda a família se encontra na beira do mar.

Durante os seis dias e as seis noites em que a moça e o Cachorro andaram juntos, encontraram pessoas de todos os tipos de alegria e de tristeza, ela observou todos e anos mais tarde escreveu sobre eles.

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O dia em que a luz  apagou _ Danielle A.Giannini

Porque sempre que a luz se apaga é a mesma coisa. A escuridão açoita os bichos e eles saem para qualquer canto. As mulheres acendem velas, não para cair de joelhos em oração, mas para se fazerem presentes. Os homens saem para verificar a segurança ou para acabar com ela. Uns trancam as portas, outros roubam. As crianças choram, desesperadas, sem nada compreender, ou então ficam excitadas diante da assombrosa e aterradora escuridão. Como se estivessem saídas de um filme de terror, divertem-se com as figuras cambaleantes que elas produzem com as mãos rente às chamas.
Outro dia apagou tudo na rua, quer dizer, não foi só lá no bairro, não. Tudo que dava pra ver da janela, estava escuro, até as antenas de TV que ficam em pé na avenida. E todo mundo que ligava pelo telefone contava a mesma história, estava tudo mundo sem luz. Quando era pra mais de  dez da noite, a luz piscou, piscou, igual carro em alerta, até que se foi de vez. Veio foi chuva, chuvarada forte e pânico na rua. Carro parado, trem parado, cantina parada, só dentro dos ônibus é que tinha luz, e também no carrinho de pipoca do seu Manoel. Esse é que fez ajudar quem andava a pé de volta pra casa; ía andando com o carrinho e lá ía atrás um bocado de gente na rabeira da luz a gás. Se seu Manoel fosse esperto, teria vendido pipoca de monte naquela noite.
Que pipoca, que nada, não tinha uma geladeira funcionando. A comidaiada foi toda pro lixo no dia seguinte. Descobrimos com uns parentes de outras cidades que eles ficaram na escuridão depois da luz piscar do mesmo jeito. Pra mim estava claro que vivemos um ataque terrorista igual aos da TV internacional. A criançada apostava em invasão extraplanetária. O pessoal da política jurava que era revolução. Os religiosos da igreja sabia que coisa boa não era. Eu via tudo da janela porque nem radinho de pilha tinha em casa. Só tinha vela, daquelas de acender para o santo fora da quaresma. Fomos dormir porque não dava para ver nada mesmo naquela escuridão. Passamos a noite em sonhos, tinha luz nos sonhos, mas quando acordamos no alvorecer, não tinha clareado nada. Era a mesma escuridão. A noite esqueceu de acabar, a luz não voltou mais. Ninguém viu E.T. nem terroristas. Os rádios ficaram mudos. Estou intrigada até agora. Como está demorando para o pessoal da companhia de luz acender a vida da gente.

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A moça famosa _ Danielle A.Giannini

Se não fosse a padaria, a vida no bairro não teria curso. Pelo menos ninguém saberia do curso da vida do bairro sem a padaria. Foi lá que ouvi falar de muitas pessoas que não conhecia, embora as visse com freqüência, ou passei a notá-las após ouvir falar sobre elas. Myrella foi uma dessas. Um mulherão para marmanjo algum botar defeito. Pelo menos os marmanjos que não freqüentavam a padaria, pois lá sabia-se tudo sobre ela. Até a verdade que lhe era mais cara. Foi um choque para o chapeiro quando ouviu pela primeira vez a revelação, foi uma bomba que estilhaçou seus brios masculinos. Demorou cinco segundos para se recompor do susto e fazer a notícia chegar ao caixa, não sem antes passar pelos rapazes do balcão de pães e atordoar o moço que corta frios; quase perdeu o dedo na máquina, o coitado, tamanho assombro. Justo ela, uma mulher tão linda, tão alta, tão simpática, aparecia na televisão todos os dias e não era cheia da metidice de alguns artistas famosos. Conversava com os meninos da padaria sem economizar sorrisos.

Quem contou tudo foi a Zefa, do salão de beleza instalado no meio do quarteirão, entre a padaria e o ponto de táxi. Zefa sabia de tudo porque as clientes, na falta do que dizer, contavam seus segredos. Se sabia de tudo, então só podia ser verdade. Pensando bem, até que Myrella era mesmo estranha, não notou as orelhas, o jeito de colocar o cabelo?! E a sobrancelha, então, aquela linha de pêlos sobre os olhos dizia tudo.

Na tarde em que Zefa do salão entrou na padaria para contar o segredo da moça bonita do bairro, artista de televisão e uma simpatia, o assombro se fez sentir no lanche vespertino em muitas casas. Não teve pão que prestasse. O padeiro beirou o colapso, justo ela que o inspirava na sua tarefa rotineira. Amassava o pão como se fizesse carinhos para ela. Fato é que a receita desandou, aliás desandou toda sua lógica de homem, macho, valente. O pão não cresceu nos dias que se seguiram e os prejuízos já ameaçavam a padaria quando eu soube do caso, caso tremendo. Lembro-me de tê-la visto na televisão na noite anterior balançando os cabelos com brilho de comercial de shampoo. Mas se a moça quis assim, que assim fosse, ou pelo menos parecia ser, sim, pois dessa vez ninguém precisou contar nada a Zefa, ela viu tudo com seus próprios olhos, ou julgou ter visto algo além do esperado. O que ninguém esperava é que a moça bonita e famosa, artista de TV e educadíssima, com um cabelo que brilhava, resolvesse ir embora. Com tamanho burburinho sobre algo tão pessoal, Myrella mudou-se do bairro sem deixar pistas a não ser o rastro do comentários que se seguiram à mudança; partiu sem se despedir de ninguém, nunca mais colocou os pés na padaria, nem no salão de beleza, só aparecia mesmo no programa da TV.

A indignação foi geral; era tão boa moça. Até esquecerem o assunto, ninguém deixou Zefa em paz. Zefa, você viu direito? Vi, sim, tá duvidando? Foi quando eu depilei a perna dela. Tinha um volume estranho. Eu tô te dizendo, essa moça é homem. Vocês estão tudo arrastando a asa é pra cima de um homem. Azar de vocês. Mas Zefa, você viu a coisa? Vi foi o volume, o que mais você queria? Desaforada!

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