pica-pau

Tem um casal de pica-pau atrás de mim. 
toc toc toc toc toc toc toc toc 
Estão fazendo o trabalho deles num tronco.
E dizem para mim:
“tente tente sempre tempe sem cansar, que você consegue”.
Enquanto eu escuto, continuam na árvore tentando.

Danielle Arantes Giannini

Equação da semana

Acordei na hora errada, fazendo contas, antes de o despertador tocar. Que desatino! Nem faço as contas das horas de sono que já perdi fazendo contas. Sim, essas coisas gostam de acontecer no meio do sono, não podem esperar a pessoa acordar. Fiz contas, fiz contas, e a mente não descansou, ficou povoada de seres intrusos, pis, tangentes, senos e co-senos, raios, ângulos e logarítimos. equação_imagemAssustador numa manhã de segunda-feira. Mas tinham lá o seu gingado. Sim, a semana seria uma bela equação matemática, disso eu estava convencida, só que com gostinho de recordações. Não que a matemática não tenha sido um trauma na minha adolescência, mas também não deixou sequelas … a não ser pela faculdade de Arquitetura que jamais tentei cursar por limitações óbvias. A mim, parece-me mais confortáveL arquitetar textos. Pelo menos se eu errar a concordância, nenhum prédio cai. Apenas dos sufocos numéricos no colégio, nada de rancores; muito pelo contrário, a matemática me presenteou com amigos queridíssimos que moram no meu coração. Um deles foi uma paciente criatura que exerceu a nobre função de ser meu professor de Matemática. Acho que era distraído o coitado, pois anos mais tarde, quando os trilhos da vida me levaram a trabalhar com ele na mesma escola, eu o ouvi dizer repetidas vezes: “essa foi uma ótima aluna, inteligentíssima”! Juro que ele me confundiu com outra aluna. A nota que obtive na primeira prova dele chega a ser indecente e obviamente meus pudores não me permitem revelar o valor. Claro que nunca trouxe esta lembrança a ele, afinal é prudente não decepcionar quem nos admira. Meu outro querido matemático…ah, esse balançou e  pôs um pé nas letras, mas não arreda o outro pé dos números. Por mais que eu tentasse irritá-lo dizendo que corrigir aquelas provinhas de matemática era baba, ele nunca deu a menor  bola para meu insulto, devia saber que era despeito mesmo. Ah, e tem também uma irmã minha, que é a encarnação da matemática. Adoro estar ao seu lado no comércio quando ela faz os cálculos de cabeça em segundos e dá o valor antes da pessoa do caixa respirar, eu me sinto a tal, mesmo que quase por osmose. Só que os genes da matemática disponíveis para nosso sobrenome foram parar todos nessa doce e prestativa irmã.  Não posso sequer dizer que gostaria de ser como ela quando crescer por razões que quem me conhece sabe bem.  Fico feliz que haja tantos engenheiros na família.  E todos detestam as letras. Lástima. Eu não entendo. As letras são tão úteis, tão maleáveis, não têm a rigidez dos números. Não, não estou querendo dizer que não gosto deles, inclusive quero fazer as pazes com eles. Hoje, mesmo eles tendo me acordado fora de hora, estou de bem com todos os algarismos, embora a equação da semana tenha dado um resultado beirando o desesperador. Culpa da matemática? De forma alguma! As responsáveis pelo meu pânico são as letras mesmo. A matemática nunca é culpada, ela é o que é. Vejam a matemática da vida, nunca dá erro, as fórmulas são precisas e existem para serem aplicadas; se o aluno displicente ou teimoso não emprega a fórmula certa, o problema não está na matemática. Com as letras é diferente. Posso usar essa palavra ou aquela, construir meu enunciado assim ou assado, encadear de uma maneira ou de outra…e sabe-se lá o efeito produzido, não raro diferente do esperado. Com uma palavra posso minar a doçura, provocar escárnio, despertar o ânimo ou o desânimo. São temperamentais as letras, parecem ter intenções próprias e gostam de nos provocar. Mesmo assim, não tem como viver sem elas, criaturas instáveis e imprevisíveis. Procuro entender cada uma delas, afinal são minhas fieis companheiras e me servem com valentia, estão à minha disposição para o que der e vier, portanto delas não me queixo. Meu perrengue hoje é com os números mesmo, que me acordaram antes da hora para me aterrorizar e me intimidar. Então decidi que salvarei a semana com as palavras e seja como for, vai terminar.

Danielle Arantes Giannini

Grito das palavras

Ahhhhhh

Que dor no âmago…

Lancinante

São as palavras

Malditas miseráveis

Não querem se calar

Explodem

Lançam-se ao léu 

Poderia perdê-las todas

Como viver sem elas?

Cada uma delas

Necessito de todas

Mesmo que seja para desprezá-las por impropriedade

Traidoras

Foram-se

Foram cumprir seu destino de palavra

E eu permaneci calada.
Danielle Arantes Giannini 

08/08/2016

O ano que não queria terminar

Não é o que se espera de um ano, especialmente no seu suspiro final. Mas é o que aconteceu com aquele ano quase findo, que teimava em assombrar a vida das pessoas ansiosas. Sim, pois todo ansioso quer que o ano termine antes de completar seus obrigatórios 365 dias, afinal por que tantos dias em um só ano? Fato é que nenhum dia fica de fora e o ansioso por natureza deseja tudo, menos viver esses dias. Por conta disso, aquele ano resolveu atormentar a vida de um bocado de gente que não o desejava mais. O ano não queria terminar. Cada dia enorme, imenso, lento, demorado, de calor paralisante no hemisfério Sul, de frio maltratante no hemisfério Norte. Ar sem oxigênio para ventilar o cérebro dos seres pensantes. O ano estava decidido a não terminar, e isso gerou terror e espanto em quem estava apaixonado, em quem tinha montantes a receber, em quem estava com hora marcada para uma comemoração importante. Tudo isso teria que esperar. Enquanto o teimoso ano não acabasse, nada de definições. E também não adiantava fazer suposições, pois o ano que estava na fila para chegar não podia antecipar seus feitos. O jeito que as pessoas encontraram foi respirar fundo cada segundo daquele ano desgostoso, e como isso passou lento. Teve gente que sucumbiu, teve quem precisou tomar calmantes, teve até quem optou por trancar-se em casa à espera do fim daquele ano que não queria terminar. Mas nenhum ano é para sempre. Pensar nisso salvou todas as vidas que não aguentavam mais a demora do novo ano, que vinha com mais de 300 oportunidades de recomeço, realizações, resoluções, superações, enfim, todos conseguiram chegar no ano seguinte. Foi por pouco!

Danielle A. Giannini

Texto originalmente publicado em https://medium.com/@dagdani

Palavra que não precisa

Tem palavra que não precisa ser dita, todo mundo sabe. Então por que tem gente que diz o que não é necessário? Estou pensando que seja para preencher um vazio, como se todo vazio precisasse ser ocupado. As pessoas lotam esses vazios com qualquer palavra, essa é a verdade. Sabe quando entramos no elevador e alguém mais está lá e parece que o andar desejado não chega nunca? Tem sempre aquele que comenta do frio, da chuva ou falta dela, não porque seja um assunto urgente ou interessante, mas porque mais de uma pessoa está no elevador e um abismo está instalado entre elas … aí dá-lhe palavra de preenchimento! Honestamente, todo mundo ali sabe o suficiente sobre o clima lá fora, e mesmo assim lá se vão as palavras pelos ares do elevador. Admito, sim, a função fática sendo posta em uso para acabar com um constrangimento temporário – a viagem de elevador não demora tanto – porém pergunto-me a razão deste mal-estar. Convenção social talvez, ou seja, ficou assim convencionado que duas ou mais pessoas, estando em um espaço pequeno, devem se comunicar a todo e qualquer custo! Ah, agora entendo o motivo de tantas palavras serem ditas sem que haja a menor necessidade. Serão palavras perdidas, suponho eu; mas isso também não tem importância alguma!

Por: Danielle Arantes Giannini

Palavra do dia: “CONFIANÇA”, um substantivo difícil

 É fácil, fácil perder a confiança em alguém ou algo. Conquistá-la é tarefa por vezes árdua, trabalhosa, demanda tempo e paciência, além de algumas decepções.  Confiança não é algo que se encontre aos borbotões, é antes uma predisposição para aceitar que o outro não vai lhe causar problemas, danos físicos ou emocionais, prejuízos de qualquer natureza. A melhor imagem que tenho da confiança é o próprio ser humano, quando ainda é bem pequenininho! Os bebês confiam incondicionalmente nas mães porque não saber desconfiar. Acostumam-se desde o período da gestação a confiar na alimentação que recebem, no aconchego e tal. Depois que nascem, deixam-se confiar nos braços das mamães, recebem-lhe o leite materno, roupas, banho, colo, afagos e outros mimos. Crescem e vão aprendendo a andar, falar e desconfiar. Opa, algo corrompe o ser humano durante sua vida e o priva da confiança. Deixa de confiar no amigo, na professora, no brinquedo que quebrou tão rápido … talvez deixe de ter confiança na própria mãe; aprende por meios variados que se tiver confiança nos políticos será enganado; se confiar no colega de trabalho será trapaceado, e por aí vai. Agora pergunto-me se a confiança é uma virtude, algo bom de se ter, do tipo que acalma a agente, ou se é bem ruim e perigoso, o que nos predisporia a esperar um golpe a qualquer momento. Então penso, penso e  concluo  que existe a confiança boa de sentir, como aquela do bebê que se vê seguro no colo da mãe, e a confiança perigosa, que vai acabar mal, como confiar em alguém que lhe dá um papel em branco para assinar. Ou um exemplo atualíssimo, como vou confiar em alguém que pede para eu preencher um cadastro com meu endereço eletrônico, com a garantia de que a informação será para uso próprio, e logo depois quilos de e-mails começam a chegam com spams e mais outras lorotas?! E percebo que a tarefa é mesmo dura. Temos que escolher em quem confiar! Fico torcendo para que os homens, políticos e não-político, se esforcem realmente para conquistarem a boa confiança de nós todos, sem fazerem pouco desse substantivo tão difícil. Danielle A. Giannini

Palavras que se vão

É assim que funciona. O sujeito fala, em muitas ocasiões sem pensar, e pronto, lá se vão as palavras. A questão é que as palavras não voltam, ou seja, depois que saem da boca de alguém vão parar nos ouvidos de outro alguém. Inevitavelmente algum efeito elas vão provocar, dependendo de sua natureza, às vezes bom, outras vezez ruim. Não é todo mundo que se dá conta disso, mas tem gente que conta justamente com esse poder das palavras e as usam com boas ou más intenções. Bem intencionando é aquele indivíduo que escolhe palavras que vão consolar, acalmar, alegrar. Mal intencionado é quem pretende magoar, diminuir, provocar ira, inveja ou ciúme. Tudo isso só com as palavras. Depois tem gente que não se importa com essa coisa que é sair falando e escutando  desleixadamente. É  preciso saber falar para o bem, é preciso escutar também!

Danielle A. Giannini