pica-pau

Tem um casal de pica-pau atrás de mim. 
toc toc toc toc toc toc toc toc 
Estão fazendo o trabalho deles num tronco.
E dizem para mim:
“tente tente sempre tempe sem cansar, que você consegue”.
Enquanto eu escuto, continuam na árvore tentando.

Danielle Arantes Giannini

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O céu na minha cidade está negro

ceu negro

 

Olhei para o céu e vi que estava desabando negrume sobre os passantes. Tratei de passar rápido. Tinha afazeres para o dia. Era meu segundo dia de disciplina, não podia falhar. Portanto parar e esperar o futuro do céu não estava nos meus planos. Pensei que minha vida devia continuar, assim como todas as vidas devem continuar mesmo quando o céu está pesado, pesaroso, pois os problemas e as soluções existem apesar do céu.

Então segui adiante.

Danielle A.Giannini

croniquinhas… a colheita

 Como se fosse o primeiro dia de sua vida, instalou-se discretamente no aconchego das horas que custavam a passar. Ficou ali não se sabe quanto tempo, até a poeira sacudir sua presença para fora. Achou ruim, ficou bravo mesmo, tal era seu desejo de permanecer inerte no mundo. Mas não teve outra saída senão pegar uma enxada e tratar de não morrer. Não tinha o direito de morrer sem conhecer as pessoas, não tinha o direito de recusar a entrada do oxigênio por suas narinas teimosas, por onde penetrava o cheiro da humanidade toda. Era o seu cheiro. O cheiro de tudo quanto há no mundo, da poeira que decanta e da refeição quente. Nunca mais pôde retirar-se ao desassossego dos devaneios de jovem. Já era maduro o fruto, era inconsistente, porém maduro quase além da conta. Lá se viu ele às voltas com a colheita, nem fartura, nem privações, apenas grãos. Nem grandes, nem pequenos. Apenas grãos. Recolheu os grãos, as horas, o frio, o medo, a felicidade e quis caminhar a passos largos. Era tarde demais. E como fosse o último dia de sua vida, lamentou.

Danielle A. Giannini

Cuidado com as palavras!

 

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É mais ou menos assim: um diz o que quer, outro ouve o que não quer. Um desentende-se com o outro e outro se recente com um. Aí é tarde demais. As palavras, boas ou más, não são vazias. Elas são carregadas de intenções. A intenção pode ser qualquer uma, por certo irá atingir quem lê ou escuta. Por isso faz-se útil policiar as palavras. Palavras não devem ser insanas se não desejamos ferir. Palavras não podem ser levianas se não intentamos magoar. Palavras não passarão despercebidas. Quem as profere não passa impune. Quem as recebe não fica impassível. É certo que uma palavra, corriqueira que seja, muda um bocadinho de alguém, e isso é uma tremenda responsabilidade de que a profere. Quem ouve ou lê, dependendo da habilidade com as palavras, entende ou concorda ou recusa ou se recente ou esboça outras tantas outras reações, mas nunca será o mesmo de antes. Assim, mudamos todos a cada palavra que enviamos e recebemos. As palavras movimentam o mundo. Isso é assustador!

Danielle A. Giannini

Banco de personagens: Josué e as palavras

Josué era um homem decidido e turrão. Pensou que pudesse dominar o mundo aos gritos, e de fato dominou muitas pessoas assim. Josué não conhecia o poder das palavras e gastou centenas de milhares de vocábulos criticando e reclamando, era assim que se sentia superior. Viu tanto defeito nas coisas da vida, que decidiu que era um injustiçado, e virou a mesa. Demitiu-se do emprego de anos, onde era suportado com paciência por todos, apesar do ríspido Josué nunca ter uma só palavra simpática para dizer-lhes. Os colegas desejaram boa sorte, uns com sinceridade mesmo, ao Josué, que viu paródia naquilo. Chegou em casa e não teve o que fazer. Os dias foram embora, um seguido do outro, e nada de alguém visitar ou telefonar, Josué não fez um amigo sequer ao longo da vida. Estava ocupado com suas palavras rancorosas. Hoje ele foi visto na praça, sorrindo para um senhor, tentava puxar papo. Queria fazer um amigo, mas teria que ter muitas paciência, principalmente com o manejo das palavras.

Danielle A. Giannini

Palavrinhas mágicas

Aprendi com a minha mãe e depois a vida mostrou que ela estava coberta de razão, Existem palavras que são mágicas: “Bom dia”, “por favor”, “muito obrigada(o)”, “de nada”. Se as pessoas se dispusessem a sair de casa com essas palavrinhas no bolso, teríamos, sem sombra de dúvida, um mundo mais gentil, educado e agradável. As relações pessoais e sociais sempre geraram atritos na humanidade, mas parece-me que o caldo entornou. Com tanta pressa, perderam-se os bons modos. Parece que “o outro” é sempre um empecilho,  o próprio problema é mais urgente do que o do outro, interessa o que faz parte da sua vida e não o do outro. Com isso, vemos as pessoas se xingarem na rua, os carros buzinando até cansar, gente que só manda e não pede…quanta  irritação. As palavrinhas mágicas podem ser um remédio eficaz para salvar a humanidade; é lógico, melhor ainda se vierem acompanhadas de um sorriso e um olhar de simpatia.

Obrigada e bom dia a todos!