Consolo

Na imensidão do mar encontro consolo, retiro força, adquiro paciência. Longe no mar, onde o horizonte traça uma linha divisória entre o que minha vista alcança e o que não se pode ver, entendo com mais vivacidade e clareza a grandeza das coisas de Deus. As águas em movimento eterno, disciplinadas pelas leis da natureza, me levam para o profundo contato com o que sou mas não percebo no cotidiano. É a sutileza dos mistérios que grita à minha frente querendo despertar. Envolvida por tal contemplação, ponho-me a escutar os mistérios, o insondável, o inaudível, o urgente. A imanente força da vida que não cessa quer se manifestar, porém nem todos estão atentos, entretidos com bebidas, com corpos, com prazeres gastos. É o som da rebentação que me extrai do superficialismo e avisa que o mar tem algo a me dizer.

E escuto, atenta, disponível, abraçada pelo divino, pensamento metafísico. Deixo levar o pensamento pelas idéias que não são minhas, vêm de presente dos seres que habitam o etéreo e conhecem o dstinos dos homens. Eu vislumbro o paraíso sem nem mesmo entender as dimensões da vida e acato ao apelo de servir. Faço um pacto e descubro que é meu compromisso de sempre, percebo também que é um pacto com a humanidade, sério, responsável, fiel. O mar me diz que para conseguir o
que desejo, preciso antes saber desejar. Ciente do que desejo, devo mobilizar forças que façam girar os fluídos de que os sonhos são feitos e depois esperar até que maturem as formas. Como a maré que sobe na hora de subir e desce na hora de descer; como a onda que corre o mar todo até encontrar a areia mole para quebrar; como os moluscos que não ganham a água sem antes abrir as conchas. Por que então me angustiar com a pressa das coisas se não sei quando é devido que elas se tornem fato? É o que o mar me questiona e não sei responder. Desconheço a resposta porque estou tomada por essa pressa inútil que mais serve para enfraquecer a fé. Com a ajuda prestimosa de um livro sobre a heroína da França, diante do mar, entendo o valor da coragem arregimentada pela fé nas coisas de Deus. Nada mais me resta a duvidar, nenhuma escolha a não ser manter-me coerente com a lei divina, nem mais uma sombra de descrença ou descrédito, nada a não ser empunhar a espada da vitória que transcende todas as eras, espada do bem, símbolo da bravura dos puros de coração e instrumento da providência. É esta espada que empunho de agora em diante, em busca do meu gênio céltico, porém mais integrada do que nunca à minha terra presente, ciente de que aqui posso plantar a semente da eternidade da vida, da pluralidade dos mundos e da ascensão pela luta. O mar escuta estes meus pensamentos e consente; sabe que entendi o seu recado e continua sua tarefa de despertar outras pessoas.

Danielle A.Giannini

(20 de julho de 2008, Ubatuba)

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A palavra “muito”

Muito, muito mesmo. Muito de tudo. É esta a síntese do meu país… e também da minha cidade. Muito grande, muito barulhento, muito desigual, muito, muito. Já parou para observar como tudo é exagerado por aqui? Tem muita gente, tem muito carro, muita moto. Tem muita loja de tudo, tem muita poluição, muito desmatamento. Uma quantidade muito enorme de celulares, muitas reclamações nos órgãos de defesa dos muitos consumidores. E a lista dos muito não para. Muito meliante, muito político corrupto, muito empresário desonesto, muita gente querendo levar vantagem, muito crime e muita pouca vontade de resolver os muitos problemas na saúde, na segurança pública, na educação, O que muito me admira é que o nosso povo é muito complacente. Tem muita coisa boa também, muitos talentos (embora muitos desperdiçados), muitas belezas naturais (já foi muito mais), muitas frutas saborosas e muito mar. Poderia ficar aqui fazendo uma lista muito grande, mas seria muito cansativo ler. Então paro por aqui com os muitos “muito” desse país superlativo, desejosa de que aqui haja pessoas muito gentis, honestas, alegres, instruídas e justas. Assim fica muito melhor!