Ela partiu

Ela é bela, ela é bela
Ela é o que ninguém mais é
É única, encantadora
A melhor
A mais importante
Incomparável.
Ela é bela, ela é bela
Ela é o todo, tudo compreende
É pilar, é base, é o topo do mundo
Insuperável.
Ela é bela, ela é bela
Vestida de cabelos alourados
Túnica azul feita de tecido-luz
Ela brilha, irradia
Ela apazigua 
Serena,
Compreende
Acalma
Ela é bela, ela é bela
Ela é esperança
Ela é reencontro
Ela é dia e noite
Sol e chuva
Brisa e lágrima
Toda sorriso
Ela é alma imortal
É o porvir
E eu aguardo.

Danielle Arantes Giannini
28/12/2020

Olhar que é arma

Foi caminhar sem rumo porque precisa espairecer. Era sempre a mesma coisa quando se afligia além da conta. E ela invariavelmente ficava tomada pela raiva quando alguém fazia bobagens no trabalho e colocava a culpa na chuva, no vento, nas nuvens no céu. Quando mais jovem, não aprendeu a aceitar cada um como cada um é, e agora essa falta de aprendizado pesava-lhe no ânimo. A bem da verdade, minava seu ânimo. A solução era sair para andarilhar sem ir a lugar algum porque não queria ter a obrigação de um destino certo; precisava do tempo que fosse, para organizar duas ou três ideias até a aflição passar. Só depois de andar muito até as panturrilhas reclamarem, é que voltava para o escritório, olhava um por um, tomava um café sem açúcar e recomeçava de onde tinha parado. Todos já conheciam essa rotina e nem se aproximavam, porque ninguém era louco de fazer isso. Não que fosse acontecer algo; na verdade, ela é que evitava os colegas, para não fuzilar um por um. Com isso era cuidadosa, não olhava nos olhos de alguém se estivesse desgostosa, sabia que o olhar podia ser uma arma perigosa. Por isso preferia andar, até gastar toda a raiva e poder olhar quem quer que fosse novamente. No outro dia era igual, depois igual, sempre igual. Como ninguém mudava nunca, previsíveis, resolveu comprar um par de tênis.

Danielle Arantes Giannini 

Quitutes da vizinha e uma namorada ciumenta!

Quem me telefonou foi Agenor. Ah, quanto tempo não encontro Agenor na rua, sempre com pressa, sempre com alguma novidade! Gostei da surpresa de falar com o amigo, que estava um pouco indignado. Agenor não está entendendo muito esse negócio de rede social para tudo. Ele me contou que agora não tem descanso; é um tal de mensagem o tempo todo, chamada de vídeo (que ele faz questão de não aparecer, inclusive revelou que consegui um papel de fundo que é uma estátua romana!), e pior, coitado, mensagem de bronca reclamando da mensagem que ele não respondeu imediatamente. Oh, Agenor, é assim mesmo, falei para consolar. Mas que nada, o homem estava danado mesmo, inconformado com a namorada de pouco tempo, que agora deu de reclamar porque ele não tem perfil nas redes sociais; está desconfiada, crente que está escondendo alguma coisa dela. Agenor até embargou a voz para me contar isso porque gosta bastante da moça; insegura, coitada, quer que ele poste fotos dos momentos a dois para as mulheres saberem que ali tem quem cuide. Tentei falar para ele criar um perfilzinho discreto, para satisfazer a namorada. Sem sucesso. Disse que não e não, que não é vitrine. Depois mudou de assunto e se alegrou demais contando da vizinha de andar, uma senhora que mora só e tinha o hábito de fazer quitutes de pratos cheirosos para receber visitas das amigas e parentes, mas agora, em tempo de isolamento, sem visitas, continua preparando suas especialidades de forno e fogão, que é para se ocupar, e todos os dias bate na porta de Agenor para entregar um farnelzinho. Cada delícia, viu! Ah, deu saudade do Agenor, reclamão. Tem sangue quente, fica absurdado com as coisas tortas do mundo, mas tem um coração sem tamanho.

Texto: Danielle Arantes Giannini

Banco de personagens: Dona Soraya e o cadeado

Padlock icon design template vector isolated

Ah, Soraya medrosa…que ventos lhe trazem aqui? Foi a pergunta que tomou Nestor de assalto quando viu a quase moça se aproximar do balcão. Quase moça porque ela não se sentia mais exatamente uma moça, achava que estava passada da mocidade, pelo menos era o que o espelho contava para ela. Mas Soraya tinha medo de se demorar até na frente do espelho, vai que dava de encontrar mais idade escondida em algum canto do rosto! Nestor não sabia desse desconforto de Soraya com a coisa do tempo que passa para todos, mas conhecia o lado medroso da sua freguesa de tantas primaveras. Fazia um tanto de tempo que ela não aparecia para comprar nada, estava se precavendo com o ganho mensal pouco vultoso que recebia da firma em que trabalhava, tinha medo de não dar para o fim do mês, tinha medo de não ter o suficiente para comprar os remédios do futuro, tinha medo de gastar sem necessidade. Ninguém sabe onde pegou esse medo, que no começo parecia ser um bom hábito de gente precavida. Como vai a vida, Dona Soraya? Está difícil, Seu Nestor, está difícil. Quem podia imaginar qual era a dificuldade dela? Talvez a parentela soubesse, talvez. O que deseja, Dona Soraya? A loja de Nestor era de ferragens, onde ela desde sempre comprava arame e alicates para fazer uns trabalhos manuais que vendia para as amigas; chegou a presentear Nestor em um Natal, era um objeto que parecia uma fruteira, mas poderia ser um porta qualquer coisa também. Vai levar arame? Não, ela queria cadeados. Pediu mais de dezena deles. Pediu do mais em conta. De certo, algum artesanato novo. Fez a compra e se foi. Nestor não sabia que os cadeados eram para as portas e janelas da casa de Soraya, que de véspera havia sonhado um estranho sonho em que todas as portas e janelas da casa abriam-se quando ela as fechava, rebeldes, interminavelmente. Alguma coisa em Soraya queria se libertar, mas ela temia saber. Pesadelo terrível, melhor prevenir!

Texto: Danielle Arantes Giannini

 

Homem de sorte?

Ser de sorte

sortudo

sorte

Mas aquele é um sortudo mesmo. Olha só a mulher que ele arranjou? Como pode? Nem bonito ele é. Deu foi sorte de ter emprego bom. Sabia que, quando dá cinco da tarde, o sortudo vai embora? Isso mesmo, Judity, cinco da tarde. Eu na maior labuta até oito da noite, e ainda chego em casa e encontro tudo de pernas pro ar. O sortudo aí tem empregada. Deu sorte até no cachorro. Não late. Vá lá em casa pra você ver o que é cachorro, uma latição que chega a ter vez de dar vontade de arramar a boca do Tobias, cachorro que só sabe comer e latir. Olha, Judity, olha o que estou te dizendo, aquele Pascoal nasceu virado pra lua, e sem calças, que é pra aumentar a sorte. Olha, Judity, mês passado ele viajou, parece que foi pra algum país aí, nem sei porque ele não posta nada na internet; isso dá uma raiva. Sujeito estranho. Deve ser por isso que tem tanta sorte.
Jussara, deixe de bestagem; do jeito que você fala, parece que tem inveja. Pascoal comeu muita poeira pra chegar onde chegou. Conheço ele faz tempo. Não foi pouco o que sofreu. E você só olha o que ele conquistou, sua despeitada, devia ter vergonha. Sorte não cai na cabeça de ninguém, não, Jussara, o que tem é o osso pra roer, mas isso você não vê.
Não adiantou Jussara falar tudo aquilo do sortudo Pascoal. Judity o tinha por conta de sortudo e ponto final. Saíram andando assim que Pascoal passou acenando para as duas, simpático e educado. Elas foram embora, para sorte do homem.

Danielle Arantes Giannini

Leia mais sobre a sorte em https://vivenciaseganhos.wordpress.com/2019/07/08/questao-de-sorte/

 

 

 

Como eu não vi?

LZQH8002

Passou por mim e nem vi
não sei se era vulto de gente
ou de morto
se bem que todo morto é gente
e muita gente é morta
não morta de corpo gelado
morta de inapetência de vida
Passou um tanto veloz
só vi o vulto
vulto apressado
O que buscava o vulto?
Para onde corria?
Ei, espere
o que é tão de urgência?
Vá com mais calma
com mais alma
com alguma alma
Por que vai só?
Vulto apressado
não sei se é homem ou mulher
vulto alto, escuro e desforme
passou e deixou aquele sopro de vento
sopro que enrijece a espinha
dá um solavanco na tranquilidade
e traz a cisma
pior fosse promover o cisma
pois que por muito
já anda desajustada nossa gente
Não vi quem passou
para onde ia
por que ia
Como acontece com tantas pessoas
vultos passam por elas
vultos diários
na rua
na condução
no comércio
na empresa
Que mundo cheio de vultos
Passam por nós amiúde
e não sabemos quem são
para onde vão
por que vão.
Nada confortável é saber que somos
nós próprios vultos que olhos alheios captam
mas não registram
Passamos e vamos
feito vulto apressado
às vezes vivo
às vezes morto.

Danielle Arantes Giannini

A desejosa

desejo

Desejou tanto, que sua vida era só desejo, aquele mesmo, único e intransferível, e acrescento, irrealizável, pelo menos para ela. Do que resultou uma vida maldita, com oscilações de esperança e frustrações. Ela não se permitia imaginar que seu desejo era impossível de se concretizar, por isso sofreu na vida. Agarrou-se ano nada. Sonhou durante a vida toda em ser quem jamais seria, ter o que não teria, tudo porque ouviu alguém dizer que é preciso sonhar alto. Assim o fez e não teve tempo de viver.

Danielle Arantes Giannini

Banco de personagens: O Inspetor do Museu

inspetordo museu.jpeg

Conheci um senhor na cadeira de espera dos Correios, muito conversador, simpático, aparentando nenhuma idade específica; parecia um rosto conservado. Estava demorando para chamarem a senha dele, e a minha também, por isso o homem pôs-se a falar comigo sem enfado ou embaraço. Não perguntou da meteorologia, como é de praxe entre desconhecidos que desejam matar o tempo ou preencher um vazio constrangedor. Ele foi logo perguntando se eu conhecia o “museu sei lá das quantas”. Não guardei o nome do museu mais por um lapso auditivo do que por desinteresse. Respondi que não. O meu novo amigo de espera não se conteve. Apresentou-se como Inspetor do Museu! Fiquei pensativo na hora, não sabia bem se havia inspetores em museus, porém não ousei fazer questionamentos porque um inspetor devia ser uma figura de respeito. Creio que se intitulava assim porque a palavra carregava algo de importância. E era, conforme ele próprio me contou. Das tantas a tantas horas da noite, era ele quem vigiava centenas e centenas de obras de sabe-se lá que valor que residiam ali no salão do acervo, todas obras valiosas, segundo o Inspetor, esperando a vez de serem escolhidas por algum curador para estrelarem uma exposição. Provavelmente era o segurança, pensei eu, mas não estava disposto a insistir nos esclarecimentos porque o homem se bastava de tanto orgulho de seu trabalho. Talvez fosse uma atividade carregada de tédio e dores nas pernas, só que o “inspetor” via uma relevância tão contagiante naquele afazer diário, que eu também fui contagiado pela aura imponente da criatura sentada ali no banco de espera da agência. Saí de lá, quase hora depois, de coluna ereta, cabeça erguida, certo de que ganhara meu dia, conversando com uma criatura de tamanha importância.

Danielle Arantes G.

Banco de personagens: Deolinda, Deolinda

Viram quem saiu toda prosa de casa hoje cedo? Foi a mulher mais bela do bairro. Não que Deolinda fosse bonita para os padrões da estética atual, mas era tomada de uma autoestima tão grande, que não tinha como não atrair olhares por onde passava. Não pintava o cabelo, usava-os em abundância ao sabor do vento; raramente colocava cor nas unhas e não via necessidade alguma em acertar a posição dos dentes. A ela bastava esbanjar seu sorriso quando julgava oportuno e despejar com desmesura suas opiniões sobre qualquer temática, ainda que não necessariamente lhe tivessem interpelado a respeito do que quer que fosse. Deolinda era afeita às lutas, mulher de fibra mesmo, no entanto chorava demais, enchia baldes quando se via na urgência de consolar um sofredor, pois sofria junto; ela acreditava que seria mais útil demonstrando sua piedade do que tomando uma atitude prática que pudesse tirar a outra criatura do seu tormento, assim todos veriam como era solidária e  boa;por isso era popular e todos a queriam por conta de amigos. Numa dessas, Deolinda deu de cara com um garoto de pouca idade ainda, por volta da adolescência, que lhe desferiu um olhar de tão acintoso desprezo mediante o discurso vazio da mulher, que aquela alma acostumada com as adulações típicas da conveniência social estremeceu de raiva. Longe de admitir que não podia ser unanimidade, Deolinda o blasfemou porque ela era linda, boa e justa demais para suportar o atrevimento de um pirralho mau.