Quando se perde um amor

Perdi o amor
Ganhei a poesia
Recuperei os versos que havia preterido
Em troca de um amor tranquilo
Passou o vento e tudo levou
A poesia, fiel companheira
Sem mágoas, sem máculas,
Sem me desprezar, sem me zombar,
Foi se achegando e instalou-se enfim
No lugar que dela sempre foi
Não fez cobrança
Não fez promessa
Pediu papel e caneta
Era hora de voltar ao trabalho.

(Danielle Arantes Giannini)

Sobre ilusões, leia novo post no Blog Dores & Ganhos
http://doreseganhos.wordpress.com

 

Poesias que custam

Apesar de toda mágoa

A poesia estava engasgada

Tinha tristeza de sobra

No entanto a poesia não saía

O papel talvez estivesse branco demais

Intimidou a poesia

Era preciso apressar

Antes que voltasse a alegria.

 

Danielle Arantes Giannini

Banco de personagens: Mariana queria beijar

Não tinha jeito, ninguém conseguia tirar a ideia maluca da cabeça vazia de Mariana. Vazia de coisas úteis, pois de besteiras aquela cachola estava cheia. E naquele dia, o que não estava deixando Mariana em paz, nem pessoa alguma ao seu redor, era o desejo imprescindível de beijar o cantor famoso que entrou no restaurante acompanhado de uma porção de pessoas desconhecidas. Calhou da moça estar na janela do escritório bem no momento em que o grupo chegou para almoçar ali do lado, para azar de todo mundo. Mariana não teve de pensar nas consequências, sequer se lembrou dos relatórios que estavam sendo seriamente aguardados na mesa na chefia e que, óbvio do óbvio, estavam atrasados, ou suspensos por causa do cantor. E quem conteve a desarvorada? Ninguém. Saiu assim, doidivana mesmo, postar-se em frente ao restaurante. Ficou plantada até a sua vítima sair. Mariana queria beijar. Mariana beijou. Beijou tão rapidamente o cantor, que o beijo não teve gosto de nada. Ainda teve que trabalhar até mais tarde para terminar seu serviço.

Danielle A. Giannini

Pintura das palavras


Vi com uma admiração sem tamanho como este pintor cuidava de seu jardim. Um delicado e branco jardim de margaridas. Não quis incomodar o rapaz, por isso não conversei com ele; apenas um clique rápido, com o telefone mesmo, e retirei-me para admirar a cena a certa distância. Não gosto de interromper quem quer que seja em sua criação, em sua arte, em sua sensibilidade. Para ser honesta, tampouco gosto de ser incomodada quando estou criando, seja o que for. As pessoas à minha volta já se acostumaram quando eu digo: “espere, estou criando”. Pode parecer pedante, mas não, é apenas minha franqueza, querendo dizer “ei, estou pensando em algo e se eu parar agora, vai tudo por água baixo”. Deve ser assim com todo mundo que cria, embora haja aqueles muito gentis, que não sabem dizer “afastem-se, por favor”, e o que devem sofrer com isso. Também tem gente que gosta de ser visto enquanto pinta um quadro ou faz um desenho; cada um é cada um. O que eu quero mesmo comentar hoje é a leveza da criação; ela que mobiliza todo o corpo. Veja, o rapaz da foto, que harmonia, como seu corpo fala que ali alguém está inteiramente mergulhado na sua arte. Escrever é assim, requer postura de mãos, de coluna, postura de mente. Não vejo como escrever desleixado, de cabeça para baixo e pés para cima do sofá, pelo menos eu não consigo. É questão de organizar corpo, mente e sensibilidade, predispor-se à inspiração, para acontecer o processo mágico e poderoso da criação, como se a cada texto fôssemos pintar um jardim de margaridas. Se quer escrever, vamos às nossas margaridas!

Por: Danielle Arantes Giannini

Entre o fazer e o não fazer

Se você está em dúvida entre escrever e não escrever, escreva. Entre pintar e não pintar? Pinte. Entre compor e não compor? Componha. Entre criar e não criar? Crie. Mas escreva, pinte, componha, crie somente se todas as células do seu corpo estiverem envolvidas, com o desejo incontido de fazer algo novo surgir; apele para a mente e para a alma, consulte suas memórias passada, presente e futura, despreze os preconceitos e veja se ainda assim restou a vontade de criar. Então escreva, pinte, componha, crie, mas faça isso se puder suscitar um bom sentimento. Se for para destruir, desiludir, desencorajar, desmoralizar, deixe a criação pra lá; sente-se, respire fundo, coma um chocolate. Aos poucos as células vão serenar, a vontade vai passar e a vida vai seguir. Pense nisso!

Danielle A. Giannini

O exercício da mente

 Experimente praticar exercícios físicos regularmente. Será ótimo, dia a dia seus limites vão se ampliando, aumenta a agilidade, vem a rapidez, o corpo fica mais flexível, músculos rijos, tonificados, que satisfação! Cada vez que você exercita o corpo, fica  melhor. Agora experimente parar por um longo tempo, talvez um, dois anos, mais até. Depois volte a se exercitar. O que aconteceu com seu corpo? Parece que enferrujou? Dói tudo? É assim mesmo, menos treino, pior. Se funciona desse jeito com o corpo, imagine com a mente! É tudo a mesma coisa. Experimente ler regularmente. Será ótimo, página  a página seu repertório vai aumentando, o raciocínio fica rápido e ágil, ampliam-se os horizontes, até o olhar muda. Agora experimente parar de ler. Aposto que vai demorar para você ter coragem e iniciativa de abrir um livro de novo. Com a criatividade, o exercício é tudo. Sem praticar não se cria, ou não se cria algo realmente bom. É com a prática constante que vêm as ideias para aquele quadro, aquele texto, aquela escultura, enfim, aquela criação. Cada vez mais ampliam-se as possibilidades,  novas técnicas e recursos são incorporados, mais criações são realizadas porque uma ideia puxa a outra que puxa um resultado melhor e outro e outro melhor. Vem a superação. Superação do corpo, da mente, da criatividade. Experimente parar. A criatividade fica fraquinha, a mente se enche de preguiça.  Portanto a receita é exercitar.  Experimente. Com persistência! Ou sua criatividade vai ficar fraquinha, e a mente cheia de preguiça.

Danielle A. Giannini

O desafio da página em branco

 Texto publicado em 02 de dezembro no blog Dragonfly, criação e arte

Por onde começar quando tudo o que se vê à frente é o mais completo, alvo e por vezes desesperador branco? A tela branca, as paredes brancas do museu, a página em branco, tudo branco. Seria mais conveniente perguntar então: começar ou não começar?

Nem sempre o começo é difícil, situações estas em que o branco é um convite, um deleite, uma sensação de liberdade ímpar. Outras vezes o branco intimida e aí os bloqueios ficam à vontade, intrusos da criação.

Lembro-me de ter me invocado com uma página em branco algumas vezes, não muitas porque vou logo preenchendo todo branco com letras e mais letras, entretanto sei que devo saber quando o branco não quer nada sobre ele, nem palavras, nem quadros, nem notas musicais, não quer e ponto.  Começar ou não começar?

Nunca concordei com a desistência da criação diante do nada do início. Dá para adiar, sem previsão, não desistir. Complica quando não se pode escolher, seja porque tem data para abrir a exposição ou prazo para a entrega das ilustrações, do texto pronto e outros compromissos mais. Quando é assim, se a parede não quer um quadro, o curador vai ter que encontrar uma saída, os desenhos vão brotar no papel e as palavras precisam vir à luz, urgente, para ontem. Pronto, já está a criação nas mãos do tempo, sem o subterfúgio do adiamento, da falta de inspiração, e inspiração não é coisa que se compre em cápsulas na farmácia.

Então está feito, é o tempo que pode dominar o branco, ainda mais o tempo curto. Tem gente que se inibe, mas se a criação tem que sair, tem outro jeito?

 

Danielle A. Giannini